Pobreza escondida...
A comunicação social acompanhou com todo o interesse, quase como se de uma novela se tratasse, a história de uma criança abandonada num caixote de lixo, logo após o parto, e providencialmente salva por um homem “sem abrigo” (ou vários, ainda não se sabe bem). A história teve, apesar de todo o dramatismo da situação, um final feliz: a criança sobreviveu, não foi privada do dom supremo que é a vida, ficará aos cuidados de uma família de acolhimento e um futuro de amor e felicidade para ela certamente se abre, com o que toda a opinião pública rejubila. Já alguém quis chamar à criança “Salvador”.
Neste contexto, questiona-se o que possa ter levado a mãe a tão insólito comportamento, de extrema crueldade ou de todo incompreensível (conforme as diferentes perspetivas).

Mas mais importante do que discutir a responsabilidade da mãe, importa – penso – sublinhar o final feliz da história e lembrar que nos contextos mais dramáticos a adoção da criança pode ser sempre uma solução que permite dar uma vida de amor e felicidade a outros “Salvadores”. Uma solução que em tudo deve ser facilitada e devidamente apoiada.
Não posso, porém, deixar de refletir sobre o seguinte.
Nos comentários a esta história, também se ouviu dizer, mais ou menos explicitamente, que a mãe poderia, e deveria, ter abortado, com o que se teria evitado o repugnante ato do abandono.
É verdade que se assim fosse, se a mãe tivesse abortado, como sucede em milhares de outras situações, já ninguém se impressionaria, já ninguém se preocuparia com a sorte da criança e esta ficaria irremediavelmente privada daquele futuro de amor e felicidade de que, apesar de tudo, não foi privado o “Salvador”

E seria assim tão diferente? Que a vida da criança terminasse um pouco mais cedo, numa fase ainda mais precoce, seria assim tão diferente? Se assim fosse, e se tudo se passasse numa clínica com cobertura legal, já o “Salvador” não teria direito à compaixão da opinião pública?
Precisamente porque nem sequer conseguiria comover outras pessoas com a imagem do seu abandono e da sua morte, seria ainda mais vulnerável e indefeso (a expressão máxima da vulnerabilidade, ou o “mais pobre dos pobres”, como dizia Santa Teresa de Calcutá). Também acabaria, muito provavelmente, num caixote do lixo: seria tratado como “lixo hospitalar”. E ninguém (ou quase ninguém!) se preocuparia com ele. E, sobretudo, ela não poderia vir a gozar de toda a beleza que é sempre a vida humana e de que virá a gozar o “Salvador”.

Mas também há quem salve alguns desses outros “Salvadores”. Poucos conhecem a ação das várias associações que apoiam mulheres grávidas em dificuldade e com esse apoio evitam que elas abortem. Essas associações não estão à espera de receber os aplausos que justificadamente recebeu o homem “sem abrigo” que salvou o “Salvador”. Mas também os mereciam. Mereciam, sobretudo, muitos mais apoios do Governo.
Pedro Vaz Patto, Juiz e Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz

João Godim
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