Não há mortes prematuras
"A morte não tem idade, nem hora, nem local. Morre-se, simplesmente", escreveu Percy Marros. Terá sido, à luz desta realidade, que faleceu, vítima de "ataque cardíaco", esta madrugada, Luís Miguel França, jornalista e ex-deputado socialista na Assembleia da República. Tinha 44 anos de idade, casado com Basília Pita, jornalista da RTP-M e pai de uma filha. Não há mortes prematuras nem o tempo de vida terrestre tem datas. Luís Miguel França, natural de São VIcente (Madeira) iniciou a carreira de jornalista no Posto Emissor do Funchal (PEF) donde transitou para a Rádio Jornal da Madeira (RJM) e daqui para RDP e RTP. Uma carreira auspiciosa e de reconhecido mérito.
A sua entrada na política trouxe algum revés. Numa região profundamente marcada pelo PSD, com um governo controlador, ser deputado pelo PS no parlamento da República, causou inevitáveis dissabores. Foi posto na prateleira da RTP, mal acabou o seu mandato na AR, as portas fecharam-se e foi no auge da sua carreira jornalística que viu o seu valor profissional desabar. Nâo há liberdade de ideais nem ideológicas, não há liberdade de expressão nem de opções, quando o jornalista apenas tem como peças de trabalho o seu talento e a sua capacidade. O jornalista neste Portugal democrático é tão vítima do poder político, de uma censura violenta e destruidora, como em muitos regimes ditatoriais, com raras excepções.
A morte de Luís Miguel França leva consigo outras mais mortes. A ilusão do jornalismo livre, a propriedade editorial, o condicionalismo maquilhado, a falsa questão do poder dos "media" servilistas do poder económico e político. Todos os dias há mortes invisivéis no jornalismo em Portugal e no mundo, sem recurso a defesa e sob pressões que ultrapassam os mínimos da sensatez. O diz-se e contradiz-se vem do topo à base como pedregulhos que esmagam tudo o que encontram pela frente. O jornalista morreu... chegou a sua vez. Paz eterna para, ti, Luís Miguel França. Condolências à família.

João Godim
FREELANCER
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