A entrevista do juiz Carlos Alexandre à SIC (uma caixa em termos jornalísticos) mais do que ter eventualmente ofendido castos e impolutos veio demonstrar que a liberdade de expressão em Portugal é uma ilusão. Algumas reacções vindas a público aproximam-se do desatino.

Andar a promover e a defender a liberdade para logo amordaça-la é como se houvesse uma Pide depois da Pide, uma censura após a extinção do exame prévio. A jornalista perguntou, Carlos Alexandre respondeu."Preso por ter cão e preso por não ter". Vamos ao que interessa, o que disse o juíz, ipsis verbis:
> "Não tenho fortuna pessoal, nem herdada, não tenho amigos pródigos, os meus encargos só são sustentados com trabalho sério”.
> "Não tenho dinheiro ou contas bancárias em nome de amigos"
> “Não tenho livros publicados, não vou a conferências, não tenho pós graduações, trabalho muito”.
> "Sinto-me escutado no meu dia-a-dia, sob várias formas".
> “Se tivesse medo, não me levantava da cama, eu aceito o meu futuro e o meu destino".

Ante estas afirmações, em discurso directo, onde está a ofensa? Recorrendo à velha expressão popular “a mim, a ti, a ele?”. Pois… só que não devia ter dito o que disse, porque tem dossiers escandalosos e escaldantes sob a sua alçada (Banco Espírito Santo; Ex-1.º ministro J. Sócrates; entre outros).
Conotações e ilações fazem parte da fertilidade humana. Louvo (sem medalha) a assumida liberdade de expressão do juiz Carlos Alexandre. Não pode haver uma Pide depois da Pide, de má memória. A entrevista fica para a história.

João Godim
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