As perguntas do nosso tempo
As mudanças na sociedade civil, nas instituições e no mundo em geral acontecem em qualquer tempo, conforme os desafios, as questões e as necessidades colocadas a vários níveis. Nesta base, encontram-se o progresso e o bem estar dos povos, desde sempre. Nestas circunstâncias, salientam-se as inovações decididas, corajosas e, ao mesmo tempo, criadoras de certa polémica ou confrontos acesos contra os preconceitos, as ideias conformadas, a defesa exagerada dos dogmatismos. Basta lembrar que o que mais ficou registado na História da humanidade foi causa de atritos, abalos, guerras, conflitos de mentalidades.

Ontem, hoje e no futuro, nada de novo quanto a isto. E a realidade atual pode servir de prova, por exemplo, no que concerne a uma grande instituição como é a Igreja Católica, desde há dois anos para cá, com o pontificado de Francisco (eleito em março de 2013), o papa "pastor", "familiar", autor de "reformas" e ator de uma acentuada "ação" que não deixa ninguém indiferente. Veja-se o que foram as suas últimas viagens - a Cuba e aos EUA; e o que se propõe levar a cabo com a realização do Sínodo dos Bispos sobre a Família, já nos próximos dias, entre 4 e 25 de outubro.

Francisco surge como uma "pedrada no charco", um vento que "abana", uma "lufada de ar fresco", uma luz que faz "ver". As suas próprias palavras e gestos apontam para as "periferias", os "descartáveis", os "pobres" de todo o género. A sua mensagem é de "esperança", sendo apenas movida pelo Evangelho e pelos princípios da doutrina que continuam válidos para as "inquietações" ou as perguntas do nosso tempo.
Em relação ao tão anunciado Sínodo, será um grande acontecimento, que desperta também o interesse mundial, com a participação de mais de 400 pessoas, incluindo 34 mulheres, que vão debater o tema "A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo".
Esta temática foi preparada antecipadamente através de um inquérito feito às Conferências Episcopais, ou Igrejas locais em todo o mundo, e merece atenções especiais, por exemplo, em termos sociais, quanto a uma atitude de maior acolhimento face aos homossexuais, às dificuldades económicas que enfrentam hoje as famílias e afetam a natalidade; no capítulo doutrinal salienta-se a discussão sobre o casamento civil, os divorciados e o acesso à Comunhão dos recasados.

Em todos estes aspetos, o papa já manifestou publicamente as suas preocupações, nomeadamente com as ameaças “ideológicas” em relação à família, lembrando as “feridas” na vida dos casais, que exigem “misericórdia” da Igreja. Agora é esperar para ver os resultados que trarão algumas influências para a prática pastoral no futuro, sabendo-se de antemão que não existe consenso em todas as matérias.
Mas, uma coisa é certa: "nada ficará como dantes"; ou como escreveu Camões num dos seus sonetos (cantado por José Mário Branco): «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, / Muda-se o ser, muda-se a confiança: Todo o mundo é composto de mudança, / Tomando sempre novas qualidades. (...) .

João Godim
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