Costuma-se dizer que as "teorias" são pouco aconselháveis para se resolverem os problemas da vida, situações que exigem respostas concretas, práticas e realistas. No entanto, nada mais controverso do que constatar que ao longo da existência e em certas etapas da vida as "teorias" sempre foram tidas em conta como uma "lição" oportuna, uma "experiência" e uma "sabedoria" indispensáveis.

Nada melhor do que ler os grandes escritores como Machado de Assis (1839-1908), o principal nome do "Realismo" brasileiro, o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras e um dos escritores mais aclamados da literatura em língua portuguesa, a par do nosso Eça de Queirós (1845-1900), contemporâneos e admiradores críticos entre si, sem nunca se terem encontrado pessoalmente.
A vasta obra de Machado de Assis, traduzida em contos, crónicas, poemas e romances, tem o selo da qualidade e, ainda hoje, o seu conteúdo continua actual pelos temas, reflexões, propostas de interpretação sobre o mundo e a vida. A propósito, lembramos o seu conto "Teoria do Medalhão", escrito em 1881, onde o autor relata uma conversa de um homem já bem vivido e um jovem a aprender a viver...

Trata-se de "um diálogo entre pai e filho na noite em que este completa a maioridade (21 anos). O pai aconselha o filho a mudar os seus hábitos, deixar de lado os seus gostos e opiniões, a fim de se tornar um Medalhão, ou seja, uma pessoa de fama e riqueza. Na teoria do pai, para alcançar esse objetivo era preciso ser uma pessoa neutra diante dos acontecimentos, ter um vocabulário limitado, preferindo sempre a conversa e o humor simples, não a ironia, deveria apenas parecer ser sábio, mas sem precisar ser.
Conselhos que quase se assemelham ao que quis Maquiavel para o Príncipe, um conjunto de reflexões sobre a "arte de conquistar e conservar o poder"..., fazer as coisas como se fossem autênticas, fingir o que não era, mascarar a realidade, para poder sobreviver e pertencer ao grupo dos "polidos" e "importantes" da sociedade, caracterizados pelas aparências e iludidos pelas suas próprias artimanhas.
Ou seja, qualquer semelhança desta "teoria" com os dias de hoje é verdadeira, pois, esta obra de Machado de Assis aponta para a valorização do "parecer acima do ser", analisando o "comportamento medíocre por meio do qual se pode ascender socialmente sem grandes esforços".

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro, no seio de uma família muito pobre. O pai de Machado de Assis era um descendente de escravos que trabalhava como pintor de paredes. A mãe, portuguesa dos Açores, faleceu quando Machado tinha 10 anos.
Segundo os seus biógrafos, Machado nunca teve uma educação formal. Para ajudar a família, chegou a trabalhar como engraxador e vendedor de doces. Era fluente em francês, língua que aprendeu com um padeiro; tendo aprendido sozinho as línguas alemã e inglesa. Trabalhou ainda como aprendiz de tipógrafo e foi funcionário público.



Além de contos memoráveis, como "Teoria do Medalhão", "O espelho" e "O alienista", Machado de Assis escreveu as "Memórias Póstumas de Brás Cubas", "Quincas Borba", "Dom Casmurro" e "Memorial de Aires", entre muitos outros títulos que merecem ser lidos a todo o tempo.

João Godim
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