A estação do Outono é propícia a interiorizações, a vivências profundas, a exemplo do que acontece com a natureza que se despede de acessórios e se distancia da dispersão.
Uma época em que os poetas e os pensadores mais se confessam e partilham pensamentos sábios, a partir de meditações serenas que as estações precedentes mais dificilmente permitiam.
Para Dalai Lama (monge budista e actual líder temporal e espiritual do povo tibetano): "Uma árvore em flor fica despida no outono. A beleza transforma-se em feiúra, a juventude em velhice e o erro em virtude. Nada fica sempre igual e nada existe realmente. Portanto, as aparências e o vazio existem simultaneamente."
Na opinião de Albert Camus (1913-1960, jornalista, dramaturgo, romancista e filósofo argelino, Nobel da Literatura em 1957): "Outono é outra Primavera, cada folha uma flor."
E num poema de Miguel Torga (1907-1995), publicado no Diário X, em 1966, Outono é: "Tarde pintada / Por não sei que pintor. / Nunca vi tanta cor / Tão colorida! / Se é de morte ou de vida, / Não é comigo. / Eu, simplesmente, digo / Que há fantasia / Neste dia, / Que o mundo me parece / Vestido por ciganas adivinhas, / E que gosto de o ver, e me apetece / Ter folhas, como as vinhas."

João Godim
FREELANCER
Mil Canções
dos últimos 30 anos
>REPORTAGENS