Andares vazios em Lisboa apavoram-me
Mais um sénior de nomeada destaca-se neste mês de maio em Portugal: Gonçalo Pereira Ribeiro Telles. Nascido em Lisboa, a 25 de maio de 1922 (faz, hoje, 94 anos de idade), licenciou-se em Engenharia Agrónoma e formou-se em Arquitetura Paisagista, no Instituto Superior de Agronomia, onde teve como mestre e foi assistente de Francisco Caldeira Cabral, pioneiro daquela disciplina entre nós.
Figura notável do ambientalismo em Portugal, defensor competentíssimo dos valores ambientais, do ordenamento do território e da humanização das cidades, Gonçalo Ribeiro Telles foi Professor Catedrático da Universidade Técnica de Lisboa e assinou projetos admiráveis, como o jardim da Fundação Calouste Gulbenkian, o Corredor Verde de Monsanto e a integração da zona ribeirinha oriental e ocidental na Estrutura Verde Principal de Lisboa.
Senhor de uma obra única, o seu trabalho foi também reconhecido internacionalmente, em 2013, ao ser distinguido com o prestigiado prémio Sir Geoffrey Jellicoe da Internacional Federation of Landscape Architects (IFLA).
Trata-se do seu mais importante galardão, uma espécie de "Nobel", que é atribuído anualmente a profissionais “cuja obra e contribuições ao longo da vida tenham tido um impacto incomparável e duradoiro no bem-estar da sociedade e do ambiente, e na promoção da profissão de Arquiteto Paisagista”.
A par da sua profissão, Gonçalo Ribeiro Telles interessou-se também pela política ativa e desempenhou cargos políticos. Na juventude, foi militante da Ação Católica Agrária e Rural, acentuando a sua oposição ao regime nas sessões do Centro Nacional de Cultura.
Com Francisco Sousa Tavares, em 1957, fundou o Movimento dos Monárquicos Independentes, a que se seguiu o Movimento dos Monárquicos Populares, assumindo-se claramente contra a ditadura. Em 1967, aquando das cheias de Lisboa, impôs-se, publicamente, contra a política de urbanização do Governo.
Após a "Revolução de Abril de 1974", fundou o Partido Popular Monárquico, cujo Diretório presidiu, o Movimento Alfacinha e o Movimento Partido da Terra, de que é Presidente Honorário. Desempenhou o cargo de Ministro de Estado e da Qualidade de Vida no VIII Governo Constitucional.
Sempre atento aos novos tempos, mas fiel aos princípios que interessam ao bem-comum, continua a alertar para os problemas ambientais e paisagísticos que estão a contaminar as nossas sociedades, sem respeito pelo natureza.

Numa entrevista ao Planeta Diário, em 2005, disse que: "As Câmaras Municipais fazem do sistema natural um espaço verde e do espaço verde uma decoração. Há a fazer uma nova política em que não deve existir mais consumo de solo vivo e solo ainda não urbano.
Estão a construir cidades só por construir e a criar não o vazio do espaço, mas o vazio do espaço construído. Os andares vazios em toda a Área Metropolitana de Lisboa apavoram-me. Continua-se a construir densamente noutras áreas. Umas esvaziam-se para se construir outras. É todo um processo de asneira e de especulação."

João Godim
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