Por estes dias, apresenta-se em Setúbal, e uma vez mais, a peça de teatro "O Homúnculo", texto de Natália Correia. Publicado pela primeira vez em 1965, é um texto sobre a sociedade portuguesa no tempo de Salazar, mas mantém flagrante atualidade. A primeira edição da obra foi logo apreendida pela PIDE, a polícia política da ditadura, pelas evidentes insinuações políticas.
O cenário da peça decorre no palácio de "el-rei Salarim", nome que a escritora utilizou para parodiar Salazar, senhor absolutíssimo de "Mortocália", a metáfora grotesca de Portugal, e onde se faz também representar uma série de acólitos, representantes dos poderes eclesial (o bispo), militar (o general) e académico e corporativo, então designado como o "Bobo Mnemésicus".
No dizer de Armando Nascimento Rosa, "O Homúnculo (tragédia jocosa)" é uma das raras obras mestras que no teatro português consegue operar o cruzamento entre a estética surrealista, o teatro do absurdo e a sátira política".
Natália Correia, uma das vozes mais originais da literatura portuguesa do século XX, nasceu na Fajã de Baixo, ilha de São Miguel, Açores, a 13 de setembro de 1923, e faleceu em Lisboa a 16 de março de 1993. Notabilizou-se como poetisa e como política, tendo sido deputada na Assembleia da República entre 1980 e 1991. É a autora da letra do Hino da Região Autónoma dos Açores.

João Godim
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