Foi com incontida emoção que quatro presos políticos falaram dos momentos vividos na luta contra o antigo regime, da clandestinidade, das perseguições, dos interrogatórios, das denúncias, das prisões e das torturas. Recordações de actos de sofrimento mas também, com os ziguezagues que a política tomou, algum desencanto. Estar na plateia, ao lado destes homens, e ouvi-los falar das lutas contra o Portugal da ditadura leva-nos a um intrigante desafio para encontrar respostas sobre os que estiveram activamente no terreno da luta e os que hoje estão no poder. Que sabem estes da vida daqueles e que gratidão é dada àqueles, estes sim, heróis da democracia? Eles estiveram nas prisões da Pide, do Aljube e de Caixas. Outros no Tarrafal. Presos políticos portugueses, quem os conhece?
Em 1961, acontece o primeiro grande abalo que colocou o governo ditatorial português em parangonas na imprensa internacional, pelas piores razões. A Índia invade e apodera-se de Goa, Damão e Diu; o navio “Santa Maria” é tomado de assalto; ocorre a rebelião no quartel de Beja e, ainda neste mesmo ano, começa a guerra em Angola que vai alastrar-se à Guiné e a Moçambique. O governo de Salazar entra em declínio, até o seu inevitável fim que veio a culminar no 25 de Abril de 1974. Os presos políticos, ao nosso lado, sentem o quanto fizeram para que a liberdade fosse alcançada, como tantos outros políticos na clandestinidade, e por isso repetem “se fosse possível voltar atrás, voltávamos a fazer o mesmo”. Mas não deixam de pensar que “há um 25 de Abril feito e um outro 25 de Abril por fazer”.
Foi, hoje, inaugurado, em Lisboa, o “Museu da Resistência e da Liberdade”, nas antigas instalações da prisão do Aljube, onde se pode ver o mais completo espólio sobre os presos políticos e o Estado Novo. Recomenda-se.

João Godim
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