A data de 24 de Junho (DIA DE SÃO JOÃO) leva-nos até às origens de um aforismo que não passou de moda - "pregar no deserto". Esta máxima é conhecida desde há mais de dois mil anos e está relacionada com João Baptista, o chamado percursor, que anunciou a presença do Messias - Jesus - no meio do seu povo.
João, primo de Jesus, vivia no deserto, alimentava-se de mel e de insectos e a sua pregação era acutilante, mas pouco acolhida pelos seus contemporâneos. O máximo que conseguiu foi "pregar no deserto" e, segundo os evangelhos, baptizar Jesus no rio Jordão.
A cena quase que se repete, por outros meios e palavras, no nosso tempo. "Pregar no deserto" é algo frequente perante interesses, comportamentos e objectivos que se pretendem manter, de acordo com conveniências mais ou menos explícitas e/ou manipuladas por poderes ocultos.

Daí que a sentença "pregar no deserto" seja compreendida ainda hoje, mas pouco eficaz; a não ser que funcione como um apelo para o interior de cada um, a descobrir-se e a comprometer-se, um voltar-se para o conhecimento de si próprio, sem esquecer os demais, a converter-se, antes de converter alguém, porque os caminhos pessoais e as estradas do mundo estão cheios de obstáculos, como tão bem relata Vinicius de Moraes no poema;
Velha História:
Depois de atravessar muitos caminhos
Um homem chegou a uma estrada clara e extensa
Cheia de calma e luz.
O homem caminhou pela estrada afora
Ouvindo a voz dos pássaros
e recebendo a luz forte do sol
Com o peito cheio de cantos
e a boca farta de risos.
O homem caminhou dias e dias pela estrada longa
Que se perdia na planície uniforme.
Caminhou dias e dias…
Os únicos pássaros voaram
Só o sol ficava
O sol forte que lhe queimava a fronte pálida.
Depois de muito tempo ele se lembrou de procurar uma fonte
Mas o sol tinha secado todas as fontes.
Ele perscrutou o horizonte
E viu que a estrada ia além,
muito além de todas as coisas.
Ele perscrutou o céu
E não viu nenhuma nuvem.

E o homem se lembrou dos outros caminhos.
Eram difíceis, mas a água cantava em todas as fontes
Eram íngremes, mas as flores embalsamavam o ar puro
Os pés sangravam na pedra, mas a árvore amiga velava o sono.
Lá havia tempestade e havia bonança
Havia sombra e havia luz.
O homem olhou por um momento a estrada clara
e deserta.
Olhou longamente para dentro de si.

João Godim
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