Quando os políticos têm alzheimer
Não se trata apenas de uma doença cientifica e medicamente provada, mas tão só de uns quantos "esquecimentos" voluntários e oportunistas exibidos por certos políticos em tempo de eleições. Mais promessas, embustes e disfarces abundam ao desbarato como se "agora é que vai ser", o futuro será "melhor do que nunca", com menosprezo pelo passado recente em que também tudo foi prometido e pouco realizado em termos de grandes e prioritárias obras.
Pronto, conforme os planos de quem governa ou as ideologias de quem está na oposição, a partir de hoje fica adiado ou prolonga-se por mais meses e anos, num balancear de quem pouco se importa com a venda da alma a Deus ou ao diabo, porque o que interessa é a oportunidade para certos negócios à custa da comunidade democrática.
A democracia tem destas coisas e o mais preocupante, segundo estudiosos, é que o simples cidadão ainda "vai em cantigas", apesar de ter nas suas próprias mãos uma poderosa arma que é o "voto"; ao mesmo tempo, manifesta-se "desconfiado" e pouco crente nas "campanhas", e sabe que "quem muito promete, muito mente". Basta consultar os jornais portugueses de há quatro anos, por exemplo, de expressão nacional e regional, para se provar quanto o "alzheimer" está a afectar os nossos políticos.
É preocupante ver o que prometeram e não cumpriram, o que disseram mal uns dos outros, até mesmo entre militantes do próprio partido, para se ajuizar desta "doença" que cada vez mais vai matando a verdade, a responsabilidade, a honestidade, a competência... É uma calamidade! Resta-nos um consolo: nada disto é novo.
O retrato sobre a qualidade dos nossos políticos e governantes já foi feito há mais de um século por um dos nossos grandes escritores, e sempre actual, Eça de Queirós (1845-1900) que, jovem repórter do "Distrito de Évora", em 1867, escreveu o seguinte:
> Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações.
A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.
A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio.
A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva.
À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (...) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espectáculos cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade."

João Godim
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