Porque é Natal... é interessante saborear as vivências de outros tempos que, na Madeira, sempre se manifestaram de maneira peculiar, como é o caso da celebração das Missas do Parto... A tradição refere-se de modo particular às devoções em honra de Nossa Senhora e do Menino Jesus, tendo-se resumido tudo à "Festa".
Mas, para além da expressão estritamente religiosa, há outras caraterísticas importantes, como bem recorda Libânia Arminda Henriques Gomes, autora do estudo "As Missas do Parto na Ilha da Madeira - Uma Tradição a Preservar".
Por exemplo, para os nossos antepassados, a Festa do Natal implicava fazer "limpezas" gerais em casa, "caiar as paredes exteriores, pintar portas e janelas", aproveitando o "Verão de São Martinho" (em Novembro); arejar as roupas, "colchas e as rendas" só usadas em ocasiões especiais.
Fazer o presépio, neste caso a "lapinha" em "escadinha" com "três degraus" onde o "Menino Jesus de pé, de coroa de prata na cabeça, entronizava no cimo, vestido de cetim branco com bordado da Madeira, seguindo-se todas as figuras colocadas nos degraus, alternando-as com frutos, pão merendeiro ou brindeiro e searinhas" (plantas verdes de trigo germinado, centeio, milho e lentilha, cujas sementes foram deitadas à terra no dia 8 de Dezembro).
Deste modo, eram colocados no presépio todos os produtos agrícolas saídos da terra, para que fossem abençoados e crescessem sempre em abundância. A "lapinha" estava de acordo com o território insular, pois, imitava "uma montanha em miniatura, sendo feita de pedras ou socas de cana vieira, forradas de papel" ou "jornais velhos" pintados de "vioxéne" para se obter uma "cor acastanhada", e mais um "pós brilhantes"...
E as plantas e flores campestres também figuravam nesta armação, desde o "alegra campo", as "cabrinhas", os "junquilhos", passando pelo "ensaião", até aos "sapatinhos".
Em relação a esta "Festa", por outro lado, também os convívios entre familiares e amigos davam nas vistas, até porque a gastronomia e as músicas eram muito bem preparadas nesta altura do ano. Assim, "um dois momentos altos do Natal madeirense consistia na matança do porco" (...) e no "tradicional prato de carne de vinho e alhos".
Os licores caseiros de frutas, como sejam "o de baunilha, tangerina, laranja anis, maracujá, tin-tan-tum", ... não faltavam nesta quadra, acompanhados de bolos e broas de mel de cana sacarina. Nada ficava esquecido, melhor, tudo se apontava para o tempo do Natal, com as melhores iguarias, roupas e convívios... O que ainda hoje se mantém em grande parte.
E quanto aos instrumentos musicais mais usados, então a preferência ia para a "Braguinha", também conhecido por "Machete de Braga ou Cavaquinho"; o "Rajão" e a "Viola de arame", que orientavam o ritmo das caminhadas e a presença de grupos de "festeiros", ao alvorecer do dia, nos adros das igrejas, nos terreiros (quintais) das casas ou nos sítios (aldeias) de toda a ilha da Madeira...
Porque é Natal..., noutros tempos era assim, mas a tradição continua...
E porque é Natal, à boa saudação madeirense, desejamos BOAS FESTAS.

João Godim
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