Governantes dependem dos governados
Há 60 anos, no dia 29 de Agosto de 1959, o então governo português - liderado por Oliveira Salazar, procedeu a uma mudança política quanto ao regime eleitoral para a presidência da República. A causa foi o grande apoio popular dado à campanha do general Humberto Delgado, um ano antes; e a consequência foi que a Assembleia Nacional acabou com a eleição do Presidente da República por voto directo, substituindo-a por um colégio eleitoral restrito.
Nada mais contrário à realidade concreta e ao princípio expresso pelos filósofos e estudiosos deste assunto, como o inglês John Locke (1632-1704) que chamou a atenção para o seguinte: "Os governantes detêm o seu poder apenas pelo consentimento dos governados". Este "consentimento" é dado precisamente através do voto popular, mas nem sempre é respeitado e considerado.
Em nome de ideologias partidárias, é comum fazer-se o contrário do prometido e perspectivado, elegendo-se adversários e inimigos a todo o tempo, como se essa táctica fosse a mais natural e honesta. No fundo, como dizia alguém, quando um agente político ocupa a vida a dizer mal do outro e a ver só defeitos em todo o lado, é sinal que lhe falta um programa, uma estratégia, uma competência séria para compreender que a política é mais do que uma aparência, superficialidade, vaidade e retórica só para entreter.
> Oliveira Salazar e Humberto Delgado
O conceito de política tem a ver com a "polis", antigas cidades da Antiguidade que se destacavam pela organização em torno dos cidadãos, autênticos soberanos do seu destino, únicos responsáveis pela escolha dos governantes, sem condicionalismos, apenas orientados pelo espírito crítico da sua liberdade. Quando assim não acontece, assiste-se a situações como aquela que aconteceu em Portugal há sessenta anos, a favor de um governo ditatorial.

João Godim
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