Retrato colectivo da pintura europeia
Os Painéis de São Vicente, a peça mais importante do Museu Nacional de Arte Antiga e da pintura portuguesa, serão alvo de restauro no âmbito de um projecto previsto para 2020. Segundo o director desta entidade, Joaquim Caetano, o restauro deverá decorrer durante três anos e envolve um custo da ordem dos 350 mil euros. O último grande restauro aconteceu entre 1909 e 1910 pela mão do pintor Luciano Freire.
Os Painéis de São Vicente - que reúnem pinturas atribuídas ao artista Nuno Gonçalves, entre 1450 e 1491 - são uma obra de enorme importância simbólica para a cultura portuguesa e considerada um singular “retrato colectivo” na história da pintura europeia. O conjunto, pintado a óleo e têmpera sobre madeira de carvalho, mantém até hoje um espírito enigmático porque o entendimento sobre a intenção e significado da obra nunca ficou totalmente claro para os especialistas em História da Arte.
As seis pinturas estão datadas de cerca de 1470 e apresentam um agrupamento de 58 personagens, em torno da dupla figuração de São Vicente, que participam numa solene e monumental assembleia representativa da corte e de vários estratos da sociedade portuguesa da época. As personagens são apresentadas em ato de veneração ao patrono e inspirador da expansão militar quatrocentista portuguesa no Magrebe.
Os especialistas acreditam que o autor das tábuas é o pintor régio de Afonso V, Nuno Gonçalves, e que estariam originalmente integradas no retábulo de São Vicente da capela-mor da Sé de Lisboa.

Os painéis foram descobertos em finais do século XIX, no Paço Patriarcal de São Vicente de Fora, em Lisboa, e, na altura, por não terem assinatura e datação visíveis e inequívocas, suscitaram um enorme mistério e fascínio por parte de várias gerações de estudiosos e académicos.
A autoria dos painéis foi descoberta por José de Figueiredo e atribuída a Nuno Gonçalves através da interpretação de um monograma revelado durante o primeiro restauro da pintura na década de 1930, localizado na bota da figura ajoelhada no Painel do Infante, que se presume ser do rei D. Duarte, e que é coincidente com outras assinaturas utilizadas pelo autor em documentos e obras contemporâneas.

João Godim
FREELANCER
Mil Canções
dos últimos 30 anos
>REPORTAGENS