Há talvez milhões de livros e artigos sobre liberdade(s) e o tão discutido livre arbítrio. Tantos de nós pensamos que sabemos o que é isso. E que temos ou não temos liberdade. Uns afirmam-na, demasiado, outros quase a negam, mas não a dispensam. São talvez dezenas as categorias de liberdade.
A liberdade religiosa é tirada aos que a têm, sem a dar a dezenas de países que nunca a tiveram. Não poucos, hoje, repetem o chavão de que a liberdade de um termina onde começa a liberdade doutro, como se ficasse tudo claro. Muitos fogem de pensar na sua liberdade interior, na liberdade dos próprios neurónios, na liberdade das paixões, afectos e coração. E mais ainda, de a ligar à responsabilidade. Repete-se que o pensar é livre; e pode ser, mas não esquecer o pensamento único, politicamente correcto, que tantos querem impor.

A maioria gosta de multiplicar as teorias da liberdade de constrangimentos sociais. Esquecem os constrangimentos da moda e os biológicos que ninguém escolhe; e as condições limitantes da liberdade que cada um vai somando na ilusão de, mesmo assim, não ficar menos livre. O “catecismo” da Revolução Francesa leva muitos a pensar que está tudo dito com os seus chavões. São muitos os que se convencem que se fazem o que lhes agrada, já são livres.
Apesar do centenário de Nelson Mandela, com 27 anos de prisão, muitos não se interrogam como é que ele, apesar de preso, se manteve libérrimo no pensar e ser. Circula um certo pavor em falar de libertinagem como se só houvesse liberdade com bondade, e que ninguém abusa dela quando se relaciona com os outros.
Nem se gosta de falar dos que perdem a liberdade interior e exterior em cada repetição dos seus comportamentos de dependência de substâncias e de pensamentos obsessivos e compulsões comportamentais. Poucos gostam de pensar que são muitos, talvez, cada vez mais, os que se comportam com liberdade reduzida em um, dois, três e mais comportamentos.

Será que os milhões de Anónimos que enfrentam, com o método de Minesota dos 12 passos, alguns dos seus comportamentos sem liberdade e sem verdade estão enganados?
Pelo menos põem lado a lado a liberdade e verdade, opostas à mentira da sua vida; põem, lado a lado a liberdade, a beleza e bondade do viver. Parece que não é politicamente correcto e bem aceite dizer que a mentira se cola à falta de liberdade, mesmo quando se afirma o contrário.
Perante Pilatos que parecia que desejava saber a verdade sobre Jesus, logo se desinteressou ao ouvi-lo dizer que veio para dar testemunho da verdade (Jo 18, 38-39). Liberdade e mentira, juntas, só podem dar em ilusão e o oposto da bondade e da beleza da vida. A liberdade mentirosa termina em corrupção e escravidão, própria e alheia.

Esta aparente liberdade, cozinhada com a mentira, não pode levar à tão apregoada fraternidade da revolução de 1789, nem à equidade de igual dignidade de todas as pessoas. A igualdade, apregoada, sem a da dignidade, respeitada, de todas as pessoas, é uma colossal mentira sociopolítica. E porque será tão esquecida a afirmação do Único que sabe plenamente o que é ser livre: “conhecereis a verdade e ela vos libertará”? (Jo 8, 32).
Aires Gameiro: Funchal, Julho de 2018

João Godim
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