A expressão "o rei vai nu" é por demais conhecida e deriva de um conto do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875), autor renomado da literatura para a infância e juventude. No entanto, esta afirmação tem sido também direcionada ao longo dos tempos para os cidadãos adultos em geral, quando em causa estão princípios éticos ou a necessidade de se denunciarem situações espúrias, falsidades, enganos e maldades...

A superpotência europeia está posta a nú ante o grave problema
A história resume-se no seguinte: «Era uma vez um rei que gastava todo o seu dinheiro em roupa. Um dia apresentaram-se diante dele dois impostores que se faziam passar por alfaiates. Diziam que não só conseguiam fazer trajes muito bonitos, com cores e padrões maravilhosos, como também eram capazes de dotá-los de uma qualidade extraordinária: ficavam invisíveis diante de qualquer pessoa que não fosse qualificada para o cargo que ocupava...» Até que um dia, num cortejo no meio da populaça, foi descoberto que "o rei estava nu", devido à sua pretensa "invisibilidade"..., e foi apontado como fraco, sem autoridade, alvo de chacota e risos incontroláveis... .
A história repete-se, não haja dúvidas, com as adaptações inerentes às circunstâncias atuais e já no meio de tantos cortejos que intentam disfarçar decisões políticas ou medidas de última hora sobre acontecimentos que há muito se adivinhavam difíceis ou se previam insustentáveis. Tudo isto vem a propósito da atual vaga de refugiados na Europa. O que à primeira vista parecia normal quanto ao acolhimento de milhares de pessoas, e sua distribuição pelos vários países, com a solidariedade tradicional, está a tornar-se num pesadelo... Agora, já se erguem fronteiras e muros, fixam-se policiamentos e vigilância apertada para se evitar a entrada de terroristas e outros indesejáveis....
Mas, já não era de prever estes receios e medos, por exemplo, com a onda de migrantes que chegaram antes à Grécia e outros tantos milhares que morreram no Mediterrâneo? Pois é, "o rei vai nu!" E resta defender pessoas aflitas, fugidas da guerra e conflitos que, com toda a urgência, têm que ser travados... Resta lembrar que esta tragédia humanitária é uma consequência, não a causa...
Como dizia William Shakespeare, através de Hamlet:
«Ser ou não ser, essa é a questão: será mais nobre suportar na mente as flechadas da trágica fortuna, ou tomar armas contra um mar de obstáculos e, enfrentando-os, vencer? Morrer — dormir, nada mais; e dizer que pelo sono se findam as dores, como os mil abalos inerentes à carne — é a conclusão que devemos buscar. Morrer — dormir; dormir, talvez sonhar — eis o problema: pois os sonhos que vierem nesse sono de morte, uma vez livres deste invólucro mortal, fazem cismar. Esse é o motivo que prolonga a desdita desta vida.»
Resta acrescentar que muito do que a Europa está viver agora é o resultado de decisões egoístas que provocam destruição em larga escala para se expandir um pretenso "império" ou domínio em que as pessoas contam cada vez menos e são tidas como "descartáveis", como tem denunciado o Papa Francisco. Consta que o ditador líbio Muammar Gaddafi (1942-2011), antes de ser executado, terá pronunciado uma ameaça terrível: "a Líbia deixa de existir, mas não se vão livrar dos terroristas".
E como se pode ignorar que é mais fácil para as grandes nações promover conflitos e guerras locais do que facilitar o desenvolvimento de outros povos? As estatísticas das Nações Unidas registam por exemplo que: "os conflitos armados aumentaram para 59,5 milhões o número de refugiados em todo o mundo no final de 2014.
Desde 2010, registou-se o início de pelo menos 15 conflitos armados: oito em África (da Líbia ao Mali, passando pela Somália, Nigéria e Sudão do Sul), três na Ásia e outros três no Médio Oriente (Síria, Iraque e Iémen) e um na Europa (Ucrânia). A Síria - que entre deslocados internos e para fora do país conta cerca de 11 milhões de pessoas desde o início da guerra - é hoje a maior fonte de refugiados no mundo. Quase dois terços dos migrantes para a Europa este ano são sírios"...

O êxodo de populações para a Europa já dura há vários anos. Em 2014, "houve um recorde de 219 mil travessias do Mediterrâneo". E só este ano estima-se a "chegada de mais de 300 mil pessoas" através do mesmo mar, com os riscos de naufrágio... Estes números fazem pensar e urge continuar a denunciar que "o rei vai nu".

João Godim
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