O homem pula e avança
Hoje é dia de dar os parabéns a António Gedeão, pelo seu nascimento e também pela singular poesia que produziu, poemas e versos que continuam a soar aos nossos ouvidos como uma melodia invulgar.

António Gedeão, (Rómulo Vasco da Gama de Carvalho), nasceu em Lisboa, 24 de Novembro de 1906 e faleceu na mesma cidade em 1997. A sua vida profissional resumiu-se ao ensino secundário como professor de Físico-Química nos Liceus Pedro Nunes e Liceu Camões; mas notabilizou-se também como pedagogo, investigador e divulgador da História da Ciência em Portugal, de tal modo que o dia do seu nascimento foi adoptado como Dia Nacional da Cultura Científica.
A par da docência e da investigação, Rómulo de Carvalho foi poeta, sob o pseudónimo de António Gedeão, tendo publicado o seu primeiro livro aos 50 anos de idade - Movimento Perpétuo (1956), seguindo-se Teatro do Mundo, em 1958 e Máquina do Fogo, em 1961... Quem não se recorda, por exemplo, do poema "Pedra Filosofal", depois cantado por Manuel Freire.
Eles não sabem que o sonho / é uma constante da vida
tão concreta e definida / como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta / em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso / em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos / que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam / em bebedeiras de azul.
(...)
Outros dos seus poemas foram também divulgados através da música, nomeadamente "Calçada de Carriche", "Fala do Homem Nascido" e "Lágrima de Preta", com grande sucesso.
Apesar de aparecer tão tarde e "escondido", António Gedeão, na opinião abalizada de Jorge de Sena: > Constituiu uma «novidade» sobre a qual todos se lançaram vorazmente. Ali estava um poeta novo e diferente, quando os outros, porque vinham existindo, se pareciam todos mais ou menos consigo próprios.(…)
Assim apreciou-se, neste poeta, como novo, aquilo que ele afinal partilhava com muitos dos seus companheiros de idade, qual era um subtil compromisso entre a libertação modernista e os esquemas tradicionais(…).
A grande novidade era um visão do mundo, em termos de cultura científica actual, coisa que sempre fora de bom tom literário que as pessoas escondessem, se acaso possuíam algo de semelhante.(…)

O tremendo mal do nosso tempo, que é a cisão entre uma cultura literária que se pretende largamente humanística e é apenas uma forma organizada de ignorância do mundo em que vivemos, e uma cultura científica que não sabe sequer da existência dos valores estéticos que dão humano sentido à vida, esse mal não favorece o entendimento de um poeta como António Gedeão."
O poeta nasce todos os dias, as suas palavras indicam o tempo da eternidade, porque: (…) o sonho comanda a vida, / sempre que um homem sonha, / o mundo pula e avança…" (António Gedeão, Pedra Filosofal).

João Godim
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