O Palácio de São Lourenço, no Funchal, bem pode designar-se de "Palácio do poder", já que a sua construção teve em mira instalar os poderes civil e militar da Madeira. Foi fortaleza, face aos ataques dos corsários, residência de capitães e governadores da ilha, no antigamente, e mais recentemente sede oficial do Ministro da República/Representante da República para a Madeira, bem como Comando Militar. Um resquício do poder colonial português.
Como fortaleza de eleição, a sua edificação foi planeada durante muito tempo pelos reis de Portugal, concluída sob o domínio filipino espanhol (entre 1580-1640), no século XVI, tendo depois sido ampliada ao longo dos anos, até se formar o atual Palácio, já no século XVIII; tendo sido classificado como Monumento Nacional em 1943.
Ao longo da sua história, o Palácio de São Lourenço acolheu também importantes acontecimentos relacionados com significativas mudanças políticas no nosso País. Por exemplo, a notícia da implantação da República, a 5 de Outubro 1910, foi dada neste Palácio pelo Comando Militar da Madeira que logo posicionou guarnições e tropas sob as novas ordens.
Em 1931, o Palácio alinhou, durante um mês, com a "Revolta da Madeira", liderada então por alguns deportados militares que se encontravam no arquipélago, como o General Sousa Dias, com grande apoio popular, pois, a "revolta" pretendia acabar com o "monopólio da importação das farinhas de trigo"... A "rebelião"", com armas e bagagens, vigorou entre os meses de Abril e Maio, e obrigou Salazar (então Presidente do Conselho do Estado Novo) a enviar uma esquadra da Marinha de Guerra e importantes efectivos do Exército e da Aviação Naval.
O balanço foi trágico para os madeirenses que reivindicavam alguma autonomia e independência, causou a morte de muitos militares e civis, assim como a deportação para Cabo Verde - campo de concentração do Tarrafal. Salazar nunca perdoou a Madeira pela luta justa das suas reivindicações, vetando a ilha ao abandono por parte do governo central.
Com o "25 de Abril de 1974", uma vez mais recai sobre o Palácio de São Lourenço uma a responsabilidade especial. No contexto dessa data, por imposição dos novos poderes em Lisboa, ao Palácio é atribuída a "guarda e proteção" dos principais governantes destituídos, os anteriores Presidente da República (Américo Tomás), Presidente do conselho de Ministros (Marcello Caetano) bem como alguns ministros (como César Moreira Baptista) e ainda alguns familiares dos detidos. Estes ex-governantes aguardaram aqui pelo exílio, decidido pela Junta de Salvação Nacional, que se veio a concretizar no Brasil.
A Madeira foi durante o estado novo um colónia explorada como as colónias portuguesas em áfrica. Já antes, desde a chegada dos portugueses ao arquipélago, toda a riqueza da ilha era encaminhada para os cofres do estado, em Lisboa, como as riquezas do açúcar (a Madeira teve mais de dez fábricas açúcareiras com elevada exportação para a Europa), bem como de outros produtores com mas valias. Não tivessem os ingleses investido na Madeira, desde meados do século XIX, nomeadamente na construção naval, carvão, vinho e bordado, e a ilha teria um atraso pior que territórios como as ilhas de São Tomé e Cabo Verde.
O Palácio de São Lourenço é, no presente, uma imagem colonial do passado de má memória. Dedicar o palácio a residência do representante da República (um funcionário público nomeado pelo chefe de estado) é uma aberração e um atentado contra os madeirenses. Bem podia e devia estar o palácio ao serviço do património cultural de portas-abertas aos residentes e turistas, nomeadamente aos estrangeiros que visitam a ilha. Um palácio feito residência de luxo, a custos elevados, só por capricho das mentes colonialistas e imperiais.
Video (10') > https://www.youtube.com/watch?v=S6ezkzqwYlg

João Godim
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