Paul Bowles (1910-1999), o escritor norte-americano que viajou por quase todo o mundo com conhecimento de causa e interesse pelos países e povos, esteve na Madeira na década de 60 do século XX. Já então vivia no norte de África (Tânger), mais ou menos retirado, mas sempre procurado e em contacto com os grandes das letras e das artes.
No seu livro "O Céu que nos Protege", Paul Bowles fez a diferença entre viajante e turista. «Não se via como um turista, era um viajante. A diferença tem a ver em parte com o tempo, explicou. Enquanto o turista costuma voltar a correr para casa ao cabo de semanas ou meses, o viajante, que não pertence a um lugar mais que a outro, desloca-se com vagar, durante anos, de uma parte da terra para outra...» . Para além de "O Céu que nos Protege", podemos ainda ler em português os livros "A Missa do Galo", "Deixai a Chuva Cair" e "Viagens".
É precisamente nesta obra ("Viagens") que dedica 16 páginas à Madeira.
As sua impressões sobre o Funchal de então e a freguesia de Santana, por exemplo, são muito interessantes. Relata tudo ao pormenor, com o requinte de quem está habituado a observar e a saborear a realidade que lhe é dada a conhecer. Confessa o seu encantamento por este pequeno território insular, pela natureza, paisagem, pessoas, costumes e tradições...; e até mesmo no meio de uma pequena praça, como é a Colégio ou do Município, Bowles diz-se cativado pelo ambiente em redor...:

Praça do Município do Funchal: "Vazia e iluminada apenas pelos seus próprios candeeiros, é seguramente uma das pracetas públicas mais elegantes que há no mundo. O esplêndido edifício assimétrico está caiado, bordejado a pedra negra, e o pavimento do centro é um mosaico abstrato de lava negra e branca. Ao fim da noite, brilhando sob a chuva, a praça tem uma beleza dramática e heterodoxa. Atravesso-a devagar e mergulho na escuridão de uma rua lateral. O relógio da catedral faz soar um elaborado carrilhão a cada quinze minutos. Por vezes, se eu estiver caminhando ao lado das ribeiras, o rumor da água sobre as rochas lá em baixo cobrirá parcialmente, mas nunca por completo, o som do carrilhão".
Paul Bowles fala também do Cais do Funchal, entre muitos outros aspetos citadinos, e considera que: «A Madeira tem imenso carácter, muito embora não seja exactamente o carácter que lhe é atribuído pelas brochuras turísticas».

João Godim
FREELANCER
Mil Canções
dos últimos 30 anos
>REPORTAGENS