Quem não tiver pecados que atire a primeira pedra
Tem causado espanto e muita celeuma a presença da "rede familiar" na actual composição do governo da República... Há muito que não se via nada assim, dizem os mais justiceiros, como que a corroborar as raízes antigas desta questão; ou seja, o assunto já não é novidade e em cada época assume contornos diferentes, com penalizações e excepções de conveniência para quem tem mais poder.
Por exemplo, parecido com isto, recorde-se a famosa "Lei Mental", promulgada pelo rei D. Duarte a 8 de Abril de 1434. O objectivo da Lei era a defesa e conservação do património Real e uma medida de centralização do poder. Esta lei, já estaria em vigor no tempo de D. João I, daí a designação de mental (in mente), mas nunca tinha sido passada a escrito.
Um dos idealizadores desta lei foi João das Regras e nela se definia a sucessão dos bens da Coroa; neste contexto, todas as terras e bens pertencentes à Coroa apenas podiam ser doadas ao filho varão primogénito, não podendo ser repartidas pelos herdeiros. No entanto, esta lei, que se manteve em vigor até 1832, tinha como única excepção os bens da Casa de Bragança e a própria vontade do rei. Enfim, outros tempos, mas as mesmas vontades...
Já Cristo lembrava que "quem não tiver pecados que atire a primeira pedra"; o mesmo se diga em relação a quem tem mais ou menos culpa, um tema igualmente tão antigo como a humanidade, como se pode ler no primeiro livro da Bíblia (Génesis, escrito há 25 séculos), no episódio de Adão e Eva no Paraíso que descreve o comportamento dos dois face à tentação, em que "brincam" ao "passa-culpas": para Adão, a culpada de tudo é Eva; para Eva, a culpa é toda da serpente..., e assim por diante, até aos dias de hoje.

João Godim
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