Revolução em Paris - uma festa de juventude
Por estes dias, e por todo o lado, circulam as notícias e recordações sobre o "Maio de 68" em França, há 50 anos, num contexto de grande euforia e revolta. A rebelião, na fase inicial, teve como protagonistas os jovens estudantes, mas logo se alargou à classe operária e cativou intelectuais de vanguarda, quase a imitar a "Revolução de 1789" e a "tomada da Bastilha".
Muito já se falou sobre estes acontecimentos e há interpretações para todos os gostos, de quem viveu muito perto de tudo, ou seguiu à distância aquele período em que o poder político e a sociedade em geral se confrontaram a sério, deixando uma marca no século XX.
Neste contexto, é sempre bom ouvir os pensadores, os sábios, que sabem mais da vida concreta, experimentada, do que simples ideologias ou utopias. É o caso do Prof. Eduardo Lourenço que naquela altura vivia em França e que falou à Lusa com alguma decepção, classificando o "Maio de 68", como uma euforia "estranhíssima", que começou por prometer muito, transformou-se numa revolta "negativa" e terminou como uma festa estudantil, que não deixou "nada", além de uma "memória", que talvez inspire o futuro.

Prof. Eduardo Lourenço: “Eu estive na França do Maio de 68, mas não estive em Paris em maio de 68, eu estava em Nice. Vivia-se, e partilhei, essa espécie de euforia estranhíssima que durou uns 15 dias”, recorda o ensaísta, que no passado dia 23 completou 95 anos de idade.
Foram momento que recorda de “um entusiasmo delirante”, sobretudo entre as alunas, “a maioria filhas da gente grada de Nice, dos médicos, dos professores”, e que lhe suscitaram, na altura, um sentimento único: “Eu disse assim, bom, realmente eu já vi tudo na minha vida, isto é o máximo”. Mas o entusiasmo não tardou a esmorecer, quando começou a perceber os contornos que a revolta assumia e os caminhos que seguia, que acabavam por não ser portadores de uma verdadeira mensagem revolucionária", observa.
Eduardo Lourenço recorda que a “principal figura” do movimento foi “um jovem alemão”, Daniel Cohn-Bendit, que ficou conhecido como ‘Dany le Rouge’, e que aquela era uma revolta de estudantes franceses, numas certas circunstâncias, contra o tipo de poder que naquele momento era representado pelo general De Gaulle, o Presidente da República, que tinha liderado a resistência à ocupação nazi, na II Guerra Mundial, e de quem era “muito admirador”.
Além disso, o "Maio de 68" não foi propriamente originário da cultura e do espaço francês, como o foi a Revolução Francesa, mas antes, de “outra grande referência do século XX”, que chegava da América.

“Era uma imitação do que se tinha passado na Califórnia, ou em parte na Califórnia, a contestação de valores, não propriamente de valores políticos – na América seria quase um pleonasmo -, mas de comportamentos de vária ordem – ordem ética, sexual -, que tiveram influência nessa época e que deixaram rasto, naturalmente”, afirma.
Mas foi com as invasões e com as destruições promovidas quer pelos jovens quer pelas forças policiais que o seu entusiasmo se viria a “esbater muito”, conta o ensaísta, que, na altura, era professor na Universidade de Nice, recordando a “invasão dos espaços universitários” por estudantes “rasgando cartazes, rasgando fotografias de Montaigne”.
“Uma coisa que era incompatível com aquilo que eu podia aceitar de uma França que eu admiro e onde fui professor e onde sou aposentado”, acrescentou.
Olhando para trás, à distância de 50 anos, o que ficou daquele movimento foi “nada”, além de “uma festa, uma festa de juventude”, na opinião do filósofo.
Eduardo Lourenço recorda que “estes rituais vinham do mais profundo da História cultural europeia” e que a universidade sempre foi o ‘focus’ de conflitos, de revoltas contra os professores, e não só".

“A universidade francesa nunca foi nenhum convento” e foi sempre um espaço “onde se jogavam aspetos fundamentais da cultura europeia, das suas contradições ou não contradições”.
“Mas enfim, chegou-me aquelas duas semanas para ver que aquilo não conduzia a parte nenhuma, a não ser como coisa memorial, para se repetir em condições talvez mais adequadas e que se chame propriamente uma revolução, no sentido profundo e positivo do termo”

João Godim
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