A quem pedir responsabilidades?
Com tantas situações adversas no campo da economia e das finanças, e decisões políticas e governamentais tomadas à medida das circunstâncias para se compor um fato que há muito, pelos vistos, já estaria estreito e apertado..., eis que, de novo, descobrimos que "o rei vai nu"...
É o que se diz acerca da solução encontrada para o "BANIF" (passe a publicidade), embora com elevados custos para os contribuintes... Mas, esta questão já não estava equacionada há muito? Quem se atrasou nos procedimentos? A quem pedir responsabilidades? Ao cidadão simples e em geral resta dizer, parafraseando um poema de José Régio (1901-1969): "Não vou por aí!"

Amanhã, 22 de dezembro, passam 46 anos sobre a morte deste grande poeta, autor de uma importante obra que se estendeu ainda pelo ensaio, o drama e o teatro. Natural de Vila do Conde, passou a maior parte da sua existência em Coimbra, Portalegre e em Lisboa (onde faleceu).
Formou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Coimbra, com uma tese sobre "As Correntes e as Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa", na qual apresentou Fernando Pessoa como o principal nome da poesia contemporânea portuguesa, na época um autor ainda desconhecido da maioria e sem qualquer livro publicado.
Ainda estudante, em Coimbra, José Régio colaborou com importantes publicações culturais: "Bysancio e Tríptico", e fundou com outros a revista "Presença". A sua estreia, como poeta em livro, aconteceu em 1925, com os Poemas de Deus e do Diabo, dos quais se destacam alguns versos do poema "Cântico Negro":

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
(...)

Como autor dramático, José Régio (pseudónimo literário de José Maria dos Reis Pereira) escreveu também textos de especial notoriedade: "Máscaras", "Jacob e o Anjo"; e "Benilde ou a Virgem-Mãe" (1947), uma peça teatral que teve a interpretação inesquecível de Maria Barroso (mulher de Mário Soares, recentemente falecida) e que mais tarde seria adaptada ao cinema por Manoel de Oliveira.

João Godim
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