Será que estamos longe desta realidade?
Em cada época ou tempo histórico, a utopia surge como uma meta que, provavelmente, nunca será alcançada, mas é responsável por um itinerário de princípios que se projetam cada vez mais para a frente e com passagens de testemunho que indicam que "debaixo do sol" tudo já foi descoberto e que o futuro é feito de muitas contribuições.
A utopia é o que anima o ser humano, apesar da esperança derrotada ou aniquilada por situações terríveis, decisões dramáticas, guerras infelizes. E nada como os grandes livros e autores para nos fazerem sentir que muito antes de existirmos, aqui e agora, já muita coisa se tinha pensado, desejado, feito e destruído, em nome de várias utopias, para o bem e para o pior da humanidade.
Lembramos a este propósito "O Anão", um pequeno romance do consagrado autor sueco Pär Lagerkvist (1891-1974), Prémio Nobel de Literatura em 1951. O conteúdo só pode ser comparado, em termos de reflexão oportuna e válida para todos os tempos, à obra "Antígona" de Sófocles, ao "Elogio da Loucura" de Erasmo de Roterdão, ao "Discurso da Dignidade do Homem" de Pico della Mirandola, à "Utopia" de Thomas More, ou ao "Príncipe" de Maquiavel, entre outras referências.
"O Anão" passa-se numa corte italiana renascentista, em que o personagem "deformado" fisicamente - Piccolino representa a "degenerescência moral", com uma visão profundamente pessimista sobre o destino da espécie humana.
«Ser homem é uma coisa grande e maravilhosa, mas deveremos regozijar-nos por sê-lo? Ser homem é uma coisa destituída de sentido, mas deveremos afligir-nos, cheios de desespero? Como responder a tais perguntas?», lê-se numa passagem deste curto romance, numa espécie de narrativa em discurso direto.

"Piccolino é o anão que após ter sido rejeitado pela sua mãe foi vendido por esta ao príncipe para servir como bobo da corte. Porém numa corte italiana renascentista, quer por iniciativa própria, quer por indicação do príncipe, Piccolino age deliberada e conscientemente cometendo todo o tipo de atrocidades com vista à extinção humana de quem sente o mais profundo desprezo"... Será que estamos longe desta realidade atualmente?
Já agora, sugerimos outras leituras que, eventualmente, nos podem ajudar na compreensão do mundo contemporâneo: "Uma caneca de tinta irlandesa" e "O Terceiro Polícia", ambos os títulos do escritor irlandês (Dublin) Flann O´Brien (1911-1966), considerados obras primas deste escritor que fez parte do grupo de outros notáveis autores irlandeses, como Samuel Beckett, James Joyce, Sterne e Swift...
Mas, não deixemos morrer as utopias...

João Godim
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