Heróis da guerra são invenções
para confortar perdas inglórias
A morte de John McCain (25.08.2018), cidadão dos EUA, considerado herói da guerra do Vietname, está a ser transformada num mito. McCain morreu aos 81 anos, por câncer no cérebro. Não morreu na guerra, mas foi elevado à glorificação de herói da guerra. Antes de mais (e para que o nosso ponto de vista não dê lugar a cenários vazios), somos contra qualquer tipo de heroificação. São exageros.
A guerra do Vietname (entre 1955-1976) causou, no total de ambos os lados em confronto, mais e 1,6 milhões de mortos e 1,8 milhões de feridos. Foi das maiores tragédias, após a II guerra mundial. Os EUA sofreram sérias perdas e, reza a história, o exército americano foi um dos que mais saiu a perder. Assim sendo, elevar a herói quem perde é o mesmo que dar a vitória a quem sai derrotado...
Os heróis da guerra são invenções para confortar perdas inglórias. Heróis da Pátria, Monumento aos Heróis, Condecorações aos Heróis, Panteão Nacional para os Heróis, Heróis da I grande guerra, Heróis da II guerra mundial, são desvios à verdade histórica. John McCain deixou uma carta ao povo americano, “à nossa grande nação”, expressando o seu ego e patriotismo, fica bem.

Conheci jovens na guerra que combateram e morreram anónimos. Foram abatidos pelas armas do inimigo, à queima-roupa, sob rajadas ensurdecedoras, carros militares a arder, mortes à beira da estrada ladeada por denso capim. Apesar da superioridade do inimigo reagiram com bravura, gritaram alto como incentivo de coragem, ripostaram até ao fim daquela emboscada infernal, numa tarde de um dia quente. Passou: mortos, feridos, traumas. Uma embosca mortal entre outras mais. Heróis…!
Os militares portugueses na guerra da Guiné (1963-1974) terão sido mais “heróis” que os militares americanos no Vietname. Em tudo. Todavia, nos 11 anos que duraram a guerra, não conheci um único herói português. Exceto condecorações e, até nesta presunção, foram mais as recomendações que o mérito reconhecido. john McCain foi para os americanos, à luz dos factos, herói de uma guerra perdida. Sem glorificações, Portugal, sem dúvida, é uma "Nação valente".

João Godim
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