Os principais cérebros-comandantes da guerra na Guiné-Bissau, bem como em Angola e Moçambique, provavelmente já morreram. O general António Spinola foi um deles, um medalhado e agraciado herói. Todos foram heróis na guerra em África. Os que morreram em combate maiores heróis são, mesmo que não tenham sido agraciados. A guerra na Guiné (por experiência própria) foi um poço da morte a todo o momento, sem saída gloriosa e destinada ao fracasso. Dói-nos, ainda hoje, passados 45 anos (lá estivemos de 1970-72), ouvir e ler ladainhas aos sábios das estratégias de combate, com planos de acção infalíveis, mas que em mais não resultaram, na maioria das vezes, que em derrotas, mortes e feridos de muitos dos nossos jovens a cumprir serviço militar obrigatório. Os sábios heróis já partiram!

Não houve coragem, nem valentia - como alguém referia - para dizer no tempo certo (início da guerra) ao governo na metrópole (Lisboa) que não havia qualquer hipótese de ganhar a guerra na Guiné e que o melhor seria a retirada. A guerra na Guiné era um poço sem fundo, em nada comparável com as guerras em Angola e em Moçambique. Todos sabem que nunca um exército, por muito bem equipado que esteja, sai vencedor numa guerra contra guerrilheiros (guerra de guerrilha), tal como todos sabem que não há garantidamente planos cem por cento eficazes contra o terrorismo (actual). Muitos anos antes de Portugal ter cedido a independência ao PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), já a Guiné pouco tinha de Portugal.
Os ataques do inimigo, com mísseis de longo alcance, eram frequentes e, algumas vezes, provocavam elevados estragados e pouco ou nada podíamos fazer!
O video que aqui se insere retrata, em parte, o drama vivido pelos militares (sobretudo pelos jovens militares amadores na guerra) na mata agressiva da Guiné que morriam por nada mas a cumprir ordens dos seus comandantes superiores. Não há dor nem choro que atenue a ansiedade e o sofrimento traumático da guerra. Há mais medalhas para combatentes de poltrona do que para os combatentes na mata. A memória grava e não branqueia a verdade. Da Guiné, do seu território e da sua gente, guardo boas recordações e saudades.
Video > https://www.youtube.com/watch?v=FOpqcUBzBXc


João Godim
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