O passado glorioso dos portugueses
Neste mês Junho (que hoje termina) assinala-se o centenário do nascimento de Vitorino Magalhães Godinho (1918-2011). Autoridade máxima na história dos Descobrimentos, contemporâneo e protagonista das mais avançadas e pioneiras obras literárias sobre a História, em geral, em sintonia com a chamada Escola dos Annales, em França, país onde viveu a maior parte da sua vida académica.
Foi viver para França porque Portugal o expulsou do ensino durante muito tempo, por razões políticas… Em França, recebeu as mais relevantes distinções e foi Professor catedrático, tendo terminado o seu currículo docente na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas de Lisboa, já depois do "25 de Abril".

Grande personalidade, cidadão activo na luta pela liberdade cívica e pela mudança de mentalidades, defendeu com elevada competência o passado glorioso dos portugueses, na época em que o mundo se descobria e aumentava por força das caravelas destemidas e marinheiros sábios e corajosos. Se fosse possível comparar a actualidade com esse passado, diríamos que hoje "somos pigmeus aos ombros de gigantes".
E no momento em que se discute, ou ainda se tem dúvidas, se os portugueses "descobriram" ou "acharam" outras terras e territórios, se deve ou não haver um "Museu das Descobertas", etc., apetece ler, sem mais demoras, o Professor Vitorino Magalhães Godinho; não precisamos de mais explicações e não nos perdemos em opiniões carentes de profundo estudo.
Também a propósito dos "600 anos da Madeira e do Porto Santo", há quem ponha em causa que não houve "descoberta", que era tudo já conhecido e que, afinal, os portugueses chegaram muito tempo depois e, por acaso, encontraram umas ilhas…, ou seja, merecem pouco mérito e até é de "bom- tom" não pronunciar a palavra "descoberta".

Como explica o Professor e competente historiador Vitorino Magalhães Godinho, na sua obra "A Expansão Quatrocentista Portuguesa", de facto: "Era o arquipélago da Madeira conhecido já no século XIV, mas a ninguém ocorrera povoá-lo. Então, e sobretudo desde que, em 1402, Béthencourt ocupara algumas (ilhas) das Canárias sob a autoridade da coroa de Castela, (o arquipélago madeirense) servia a castelhanos e portugueses de escala no regresso das ilhas Canárias, para aguada e caça.
Todavia, só entre 1419 e 1426 nele (arquipélago da Madeira), se estabeleceram os primeiros colonos. O povoamento, empreenderam-no dois escudeiros nobres da casa do Infante D. Henrique e um fidalgo de origem italiana - Palastrelli - da casa do Infante D. João. Como não pertenciam à nobreza favorecida, pretendiam constituir pequenos senhorios laboriosos, mas de rendimento assegurado dada a "bondade da terra". (…)

"João Gonçalves (Zarco) era neto do vedor da fazenda João Afonso e, por isso, Jaime Cortesão aventou que esse estadista, a quem se devia já a tomada de Ceuta (1415), incentivou essa colonização. Os primeiros esforços dirigiram-se para Porto Santo, fracassando provavelmente por causa das querelas entre os três capitães (Zarco, Tristão Teixeira e Bartolomeu Perestrelo).
Só Perestrelo voltará a instalar-se nesta ilha" (Porto Santo), com a sua actividade económica centrada na "criação de gado" e na "exploração de uma cor tintorial, o “sangue-de-dragão". Zarco e Teixeira fixaram-se na Madeira e, nos anos de 1425 e 1426, "o Estado organiza juridicamente a ocupação do solo e a colonização".
Conclusão: Urge ler e aprofundar estes temas das "Descobertas" ou "Descobrimentos" portugueses com quem, na verdade, sabe do ofício de Historiador, como foi (e continua a ser) o Professor Vitorino Magalhães Godinho, que agora recordamos nos 100 anos do seu nascimento.

João Godim
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