Combater apenas o analfabetismo
não é salvar uma civilização
Ramalho Ortigão (1836-1915), jornalista e escritor português, um dos principais nomes da “geração de 70”, autor de "As Farpas" e de "O Mistério da Estrada de Sintra", em colaboração com Eça de Queirós (1845-1900), nasceu no Porto, a 24 de outubro de 1836.
Frequentou o curso de Direito na Universidade de Coimbra, sem o concluir. Na cidade natal, foi professor de Francês no Colégio da Lapa e deu aulas ao autor de "A Cidade e as Serras".
Com a sua nomeação para a secretaria da Academia de Ciências, estabeleceu-se em Lisboa e passou a escrever para vários jornais e revistas. Tomou parte na chamada "Questão Coimbrã" com o folheto "Literatura de hoje", tendo defendido o poeta Feliciano de Castilho dos ataques da nova geração tendo mesmo enfrentado Antero de Quental num duelo, de que saiu ferido.
Fez várias viagens ao estrangeiro, o que influenciou muito o seu modo de ver Portugal. Obras Ramalho Ortigão mais conhecidas: Em Paris (1868); Histórias Cor-de-Rosa (1870); O Mistério da Estrada de Sintra (com Eça de Queirós, 1870); As Farpas (1871-1884); El-Rei D. Carlos, o Martirizado (1908); Últimas Farpas (1911-1914).
(da esquerda para a direita): Eça de Queirós, Oliveira Martins, Antero de Quental, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro.
Carta de Ramalho Ortigão intitulada "De um velho a um Novo" (1914), esta última escrita a João do Amaral, um ano antes da sua morte, representa uma espécie de testamento político do autor, onde defende o respeito pelas tradições e a educação do povo a todos os níveis, entre outras reflexões sobre os novos tempos que estavam a acontecer.
Eis um excerto: "Combater apenas o analfabetismo do povo por meio de escolas primárias e de escolas infantis, sem religião e sem Deus, não é salvar uma civilização, é destruí-la pela base, por meio do pedantismo da incompetência, da materialização dos sentimentos e do envenenamento das ideias.
Quem ignora, hoje, que foi a perseguição religiosa e o domínio mental da escola laica o que retalhou e fraccionou em França a alma da nação? Quem é que nesse tão amado, tão generoso e tão atribulado país não está vendo, hoje, objectivar-se praticamente o profético aforismo de Le Bon: «É sobretudo depois de destruídos os deuses que se reconhece a utilidade deles»!

João Godim
FREELANCER
Mil Canções
dos últimos 30 anos
>REPORTAGENS