O primeiro (e único...) português Nobel da Literatura (1998), José Saramago, morreu há cinco anos. Por muito que se goste ou não da sua escrita, não se pode menosprezar a sua obra literária, por quaisquer motivos, mesmo de ordem ideológica. A literatura é mais do que uma simples opinião ou arma privilegiada de alguns, como se bastasse saber escrever para dizer o que apetece, de forma crítica ou não. A literatura é criatividade e arte, e exige capacidades inatas que se desenvolvem conforme o tempo, o lugar e as influências que se vivem.

Como afirmou o próprio Saramago: «Eu sei que aquilo que eu escrevo já foi escrito antes, como tudo aquilo que hoje fazemos, salvo raras exceções, já foi feito há muito tempo, antes de nós. Tudo é assim na vida. Na literatura também».
Mas, a arte de escrever livros tem o seu quê e não é escritor quem quer... Há frases e formas de escrever que ficaram e ficarão para sempre na nossa memória, como uma herança que se transmite de geração em geração, e que deleitam as sensibilidades com um prazer único.
Parafraseando o grande Rui Barbosa: «Os que madrugam no ler, convém madrugarem também no pensar. Vulgar é ler, raro o refletir». Daí que escrever ou publicar muito não signifique que haja literatura no verdadeiro sentido da palavra (o conceito deriva do latim litterae e designa o conjunto de conhecimentos e competências para escrever e ler bem).
Voltando a Saramago (1922-2010), sem preconceitos ou partidarismos, dizemos que estamos perante um verdadeiro escritor. A sua obra, com certas inovações e não estando isenta de dificuldades para a sua compreensão, deve ser lida com interesse. Os títulos porventura mais conhecidos: Levantado do Chão, Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A Jangada de Pedra, Ensaio Sobre a Cegueira, Todos os Nomes, A Caverna, Ensaio Sobre a Lucidez, As Intermitências da Morte..., continuam a ser sugestivos e emblemáticos em termos de literatura e de interpretação crítica sobre o mundo onde estamos inseridos.

O escritor é um intérprete atento e oportuno das coisas e situações com interesse para todos; e o leitor continua essa sua tarefa, sem peias, esse trabalho que senão se confunde com o saber aparente, mas com o saber da realidade. Estamos a celebrar a memória de José Saramago, mas, no fundo, ele continua vivo através da literatura que entre nós produziu, uma literatura com raízes populares, gerada no mais autêntico do ser português.
No seu discurso aquando da receção do Nobel, em Estocolmo, começou por homenagear os seus antepassados familiares, num sinal de gratidão e sabedoria:
«O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo.» Aqui fica esta proposta para continuarmos a ler Saramago.
Violante Matos (filha), no lado direito de José Saramago (pai)
Sobre a sua vida pessoal e de intervenção cívica há muita informação que se pode obter facilmente. Resta acrescentar que a filha de José Saramago - Violante Saramago Matos, é casada com um madeirense e vive na Madeira; muitas vezes, por este motivo, o nosso Nobel de Literatura também esteve nesta ilha descoberta pelos genoveses, seis décadas depois encontrada e povoada pelos portugueses.

João Godim
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