Os cantos deste nosso mundo
Quase a terminar este mês de dezembro, é hora de fazer balanços ou deitar contas à vida, mas vem-nos também à memória certas pessoas para quem o título de imortal não será exagero. É o caso de José Rodrigues Miguéis, escritor, nascido em Lisboa, em dezembro de 1901, e falecido há 35 anos em Nova Iorque.

Licenciado em Direito (Universidade de Lisboa) e em Ciências Pedagógicas (Universidade de Bruxelas), antes de se afirmar como autor de reconhecidos méritos, exerceu durante algum tempo a profissão de advogado, delegado do Ministério Público e professor do ensino secundário. Ao mesmo tempo, colaborava na imprensa, no jornal A República, na revista Seara Nova e no semanário O Globo, de que chegou a ser diretor.Teve ainda uma intervenção cívica e política, participando em movimentos democráticos, mas logo sofreu a censura e foi vítima de perseguição.
Desiludido com a situação vigente, optou então por viver nos Estados Unidos da América (EUA), a partir de 1935, onde trabalhou como assistente editor das Seleções do Reader’s Digest, dedicou-se à tradução de nomes sonantes da literatura mundial, como Stendhal e F. Scott Fitzgerald, e passou a escrever as suas principais obras: Onde a Noite se Acaba (1946), Saudades para D. Genciana (1956), O Natal do Clandestino (1957), Léah e Outras Histórias (1958) Uma Aventura Inquietante (1959), Um Homem Sorri à Morte com Meia Cara (1959), Gente da Terceira Classe (1962)...

Neste último título, Miguéis narra a sua primeira viagem para os EUA. É uma espécie de crónica autobiográfica, onde o autor regista todas as impressões de uma realidade social bem expressa nos passageiros daquela altura, entre os quais se encontravam também alguns madeirenses, como podemos ler no seguinte excerto (jornal de bordo - 1935):
«(...) É preciso ter viajado num destes transatlânticos para se fazer uma ideia das fronteiras que separam os homens e as classes, mesmo dentro duma casca de noz. E somos poucos, aqui, não mais de cinquenta: que faria se fôssemos os duzentos ou quatrocentos da lotação, só Deus sabe, amontoados na imunda gafaria que é a terceira dos emigrantes. (...)

Paquete "Santa Maria", no Porto do Funchal, anos 60 do século XX. Era na Madeira que o "Santa Maria", da Companhia Colonial de Navegação, recebia o maior número de emigrantes com destino a Miami (EUA) e ao Curaçau (ilha do caribe, nas antilhas holandesas).
Ao partir, levavam consigo ao menos uma esperança: agora nem isso lhes resta. Muitos deles, com o sonho, seu único luxo, perderam por lá a saúde e a força de trabalho, que era toda a sua riqueza. Com estes, os de torna-viagem, embarcaram na Madeira e agora comigo, em Lisboa, alguns portugueses que vão, como eu, à Inglaterra tomar o paquete para os Estados Unidos.
Assim se juntam aqui, embora com destinos e em estados de alma opostos, duas correntes da mesma miséria: uma delas, ainda quente do sol da ilusão, parte para a zonas mais temperadas e prósperas do Leste americano; a outra regressa lá do equador e do trópico, fria de desapontamento, amolambada e escrofulosa, para se dispersar por todos os cantos deste nosso mundo cristão e ocidental. Correntes humanas, num inquieto e perpétuo corropio em torno destoutro mar de Sargaços, a vida.(...)»

João Godim
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