Autor de poucas palavras
A morte do poeta e tradutor José Bento (no passado dia 26) quase passou despercebida da maioria e, no entanto, o seu nome é citado de forma incontornável como um dos melhores tradutores portugueses de todos os tempos. Intelectual de primeira água, como se costuma dizer, sempre preferiu a discrição, a sombra, em vez dos palcos das notícias, da fama mediática e efémera. Interessava-se mais pelo essencial dos autores e das obras, a quem se ligava de forma familiar, tal os laços da linguagem profunda e bela que pretendia construir e dar a conhecer.
Aquando da recepção do Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura, que lhe foi atribuído em 2006, ele que não gostava de aparecer em público, remeteu em poucas palavras a sua gratidão para quem tinha traduzido e não pelo seu próprio mérito: ""Os autores que traduzi nada me devem e eu, sem dúvida, devo-lhes muito".
José Bento morreu silenciosamente, aos 86 anos de idade (n. em Pardilhó, Aveiro, a 17 de Novembro de 1932). Formou-se em Contabilidade, mas foi na escrita e na tradução da língua espanhola que mais se notabilizou. Na década de 1950 fundou a revista literária Cassiopeia e tornou-se num dos principais divulgadores de grandes poetas e autores como Jorge Luís Borges, Garcia Lorca, Miguel de Unamuno, Santa Teresa de Ávila, São João da Cruz, Miguel de Cervantes, Vicente Alexandre, Luís Cernuda, Pablo Neruda, Ortega y Gasset, María Zambrano, Octavio Paz, Calderón de la Barca, Francisco de Quevedo, entre outros. Foi também um poeta muito premiado, autor de livros como "Sítios" e "Um Sossegado Silêncio".
Em 1991 foi condecorado pelo rei Juan Carlos de Espanha com a Medalha de Ouro de Mérito das Belas Artes e, no ano seguinte, foi distinguido com a Ordem do Infante D. Henrique, pelo Presidente da República Mário Soares.

José Bento (1932-2019) ficará na memória de muitos como uma referência de incomparável humildade, como lembrança de quem busca o mais profundo e procura o essencial através de outros grandes, numa incessante caminhada que só a morte física pôs fim, mas cuja obra jamais cessará por ser um lugar, um "espaço", onde o autor vai continuar a estar acessível aos seus leitores, como se poderá parafrasear a partir de um dos seus poemas:
"Um só espaço em verdade me pertence - meu berço, meu texto, meu legado: a casa que é a mãe e viverá", escreveu José Bento em "Este É Um Dos Lugares". "Lá estou e serei: sou as paredes, a escuridão que a procura (...). Batei à porta, chamai do seu jardim devastado até não me ser senão lembrança: lá dentro, responderei, embora aqui, desde sempre à espera de ninguém".

João Godim
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