Seniores de uma sabedoria eterna
Joaquim Rosa (1926-2016), ator português dos mais conceituados, faleceu esta semana, quase a completar 90 anos de idade.
Era natural de Évora e a sua carreira foi especialmente dedicada ao teatro. Fez também cinema e televisão. Um dos seus papéis cinematográficos mais emblemáticos foi o Padre Alves de Manhã Submersa (1980), realizado por Lauro António.
No teatro, entrou ainda em vários espectáculos encenados por Filipe La Féria, como "My Fair Lady" ou "A Casa do Lago". E antes do "25 de Abril" fez parte do grupo de atores famosos que protagonizaram os folhetins do teatro radiofónico, na então Emissora Nacional, ao lado de Rui de Carvalho, do saudoso Paulo Renato e tantos outros que marcaram uma geração de ouvintes.
Dono de uma voz inconfundível, senhor de uma postura delicada, graciosa, educada, Joaquim Rosa vivia há alguns anos na Casa do Artista e, como sénior, era o testemunho vivo de uma sabedoria eterna.
O teatro radiofónico era uma verdadeira escola para muita gente, pois, dava a conhecer grandes clássicos da literatura e consagrados artistas e intérpretes. Tudo isto pode ser recordado e melhor conhecido no livro de Eduardo Street - "O teatro invisível. História do teatro radiofónico". A primeira transmissão coube à peça de Júlio Dantas, "A Ceia dos Cardeais". Samuel Dinis seria um dos intérpretes, marcando o começo de uma carreira muito ligada ao teatro na rádio. Já em 1936 seria transmitida a primeira peça escrita para a rádio: Bodas de Lia, de Pedroso Rodrigues.
Em 1938, surgia Virgínia Vitorino (1898-1967) (do grupo de Fernanda Castro, que era mulher de António Ferro, presidente do Secretariado de Propaganda Nacional e da Emissora Nacional, a partir de finais da década de 1930). Membro do Conselho Permanente de Programas, Virgínia Vitorino foi fundamental para a transmissão regular de teatro radiofónico (como autora e intérprete sob o nome de Maria João do Vale).
Outra figura importante no arranque do teatro radiofónico seria Maria Madalena Patacho (1903-1993), autora de programas como Meia hora de recreio para crianças. Alice Ogando (1900-1981) e Odete Saint-Maurice (1918-1993) seriam duas das principais figuras na organização de programas de teatro radiofónico, havendo mesmo uma competição entre as duas para conseguirem séries mais longas de episódios. Outras ainda seriam Ema Paul e Judite Navarro (1918-1987).
Ao longo de 70 anos de teatro radiofónico, e num total de 237 folhetins, Alice Ogando foi a campeã da adaptação de romances a folhetins (28), seguindo-se Odete Saint Maurice (24), Judite Navarro (18), Ema Paul e Botelho da Silva (17) e Álvaro Martins Lopes (13). Dos autores representados, Camilo Castelo Branco vem à frente (11 títulos), acompanhando-o Alexandre Dumas (8), Walter Scott e Charles Dickens (6 cada um) e Júlio Dinis (5).
No mapa das figuras pioneiras, destaque ainda para Olavo d'Eça Leal (1908-1976), poeta, dramaturgo, locutor e escritor de teatro, que criou a personagem Octávio Mendes (Mendes), que o acompanhou em trinta anos de diálogos. E Jorge Alves (1914-1976), que começara no Rádio Clube Português e fora para os Estados Unidos aprender a técnica de montagem - ou sonorização ou realização radiofónica.
Com Jorge Alves nasceram os primeiros folhetins e os indicativos de cada programa, que alertavam os ouvintes para a sua transmissão. Assim como Álvaro Benamor (1908-1976), o responsável pelo programa Teatro das Comédias, que se prolongaria de 1952 a 1974.
Neste livro de Eduardo Street são evocadas outras vedetas - as vozes da rádio, de que se destaca a primeira locutora da Emissora Nacional, Maria de Resende, a qual ainda escreveu versos e contos para crianças e era muito popular entre os portugueses residentes no estrangeiro.

A Emissora Nacional (actual RDP) foi inaugurada a 1 de Agosto de 1935.
Mas há muitas outras vozes lembradas no livro, tais como Manuel Lereno (1914-1976, Carmen Dolores (n. 1924), Rui de Carvalho (n. 1927), Eunice Muñoz (n.1928) ou Canto e Castro (1930-2005).
Video (...) > https://www.youtube.com/watch?v=CCTGhD_d6wE

João Godim
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