A origem histórica, datada, do teatro português celebra este ano o 550.º aniversário do nascimento do seu autor pioneiro: Gil Vicente (1465-1536). Ainda que prevaleçam algumas dúvidas sobre estas datas, há consenso generalizado para se registar a identidade do teatro português através das obras escritas de Gil Vicente, em que se destaca a trilogia: Auto da Barca do Inferno, Auto da Barca do Purgatório e Auto da Barca da Glória, bem como a Farsa de Inês Pereira, Auto da Feira, Auto da Índia, Auto de Mofina Mendes, entre outros.
É considerado o mais representativo autor dramático em toda a Península Ibérica no século XVI e a sua bibliografia é testemunha de grandes mudanças em Portugal, como as viagens de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, que relata nos seus autos; também testemunhou a instauração da Inquisição, da qual também teria sido vítima, por defender os "cristãos-novos".
Custódia de Belém, da autoria de Gil Vicente. Trata-se de um ostensório de ouro e esmalte, datado de 1506.
Para além do seu trabalho como dramaturgo, Gil Vicente foi ainda mestre ourives a quem (afirmam os especialistas) se deve a da Custódia de Belém, uma alfaia de culto do espólio privado de D. Manuel I, com mais de 6 kg em ouro, concluída em 1506, e que após a morte deste monarca, em 1521, foi legada em testamento ao Mosteiro de Santa Maria de Belém (Lisboa).
Apesar de tudo isto, pouco se sabe sobre a vida de Gil Vicente. Os estudiosos dizem que teria nascido por volta de 1465, em Guimarães ou em outro lugar da região da Beira. Casado duas vezes, teve cinco filhos, incluindo Paula e Luís Vicente, que organizaram a primeira compilação das suas obras.
Mas, ainda a propósito do "fundador do teatro português", convém ler a peça de Almeida Garrett (1799-1854): "Um Auto de Gil Vicente", um drama representado pela primeira vez, em 1838, no Teatro da Rua dos Condes, e publicado posteriormente em livro. No prefácio, o autor alerta para o problema do declínio da arte dramática em Portugal e defende a urgência de ressuscitar o teatro nacional, chegando a edificar o Teatro Nacional D. Maria II :
> O drama de Gil Vicente que tomei para título deste não é um episódio, é o assunto mesmo do meu drama; é o ponto em que se enlaça e do qual se desenlaça depois a ação; (...) Mas eu não quis só fazer um drama, sim um drama de outro drama, e ressuscitar Gil Vicente a ver se ressuscitava o teatro".

João Godim
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