Morreu há 41 anos (a 29 de Junho de 1974), mas a sua obra literária dificilmente poderá ficar esquecida. Recordamos, hoje, José Maria Ferreira de Castro, «(...) um dos nossos mais elegantes prosadores», segundo Manuel Rodrigues Lapa; «o primeiro grande romancista português deste século (XX) que se determinou por problemas objectivos e não apenas por impulsos íntimos», no dizer de Óscar Lopes; o escritor que «com a arma da literatura ajudou a transformar o mundo. Foi verdadeiro escritor de nossa época, sendo, como queria Gorki, ao mesmo tempo coveiro e parteiro, coveiro de um mundo caduco, de um tempo podre, parteiro de um mundo novo, de um tempo alegre e livre», considerou Jorge Amado, entre outros.

Natural de Ossela, Oliveira de Azeméis, Ferreira de Castro nasceu em 1898, no seio de uma família pobre; órfão de pai aos oito anos, aos doze é enviado para o Brasil, como emigrante, para trabalhar nos seringais, no interior da Amazónia, período que recorda no celebrado romance "A Selva" que, como o livro "Emigrantes", desde logo inscreve o nome do seu autor em lugar de destaque na moderna literatura portuguesa.
Viveu na floresta amazónica durante quatro anos e depois muda para Belém do Pará, onde começa a escreve novelas e colaborar na imprensa, tendo inclusive fundado o semanário Portugal, com Pinto Monteiro. Regressa a Portugal em 1919, dedicando-se então a uma intensa produção literária; funda a revista "A Hora" (1922), é jornalista do Século, da revista ABC, diretor do magazine Civilização e do semanário "O Diabo"..., ao mesmo tempo que vai publicando livros de ensaios literários e sociológicos..., até à publicação das suas obras paradigmáticas, os romances: "Emigrantes" (1928) e "A Selva" (1930), um dos livros portugueses mais traduzidos em todo o mundo. Surgiram depois "Eternidade" (1933), escrito também na Madeira, "Terra Fria" (1934), "A Tempestade" (1940), "A Lã e a Neve" (1947), " A Curva da Estrada" (1950), "A Missão" (1954) e "O Instinto Supremo" (1968). De assinalar ainda os seus trabalhos de grande reportagem: "Pequenos Mundos e Velhas Civilizações" (1937), "A Volta ao Mundo" (1944) e as "Maravilhas Artísticas do Mundo" (1955 a 1961).
Ferreira de Castro visitou por mais de uma vez a Madeira e numa das suas estadias no Funchal classificou o Café Golden Gate (atualmente encerrado), como "A esquina do mundo"; a entrada principal deste Café ostenta uma lápide com a efígie do escritor, como lembrança efetiva da sua presença entre nós.
No seu livro «Eternidade», o escritor relata, entre outros aspetos característicos do viver madeirense, a noite de São Silvestre, com o tradicional fogo de artifício: «Antes mesmo de cair a meia-noite sobre o último santo do calendário, portas e janelas da cidade, fossem de vivendas modernas, de velhos e austeros palácios ou de pobres casebres, começavam a esparrinhar fogo na grande encosta, enchendo-se a escuridão de lumaréus, vomitando estrelas e lágrimas, flamas que erravam um momento e logo se apagavam, dando lugar a outras, que traziam todas as cores do arco-íris e se entrançavam e se perdiam num espectáculo demoníaco, fantasmagórico e inesquecível. Tudo ardia, tudo fulgurava; já não existia a terra; vivia-se num outro mundo. A noite era uma apoteose aos génios do mar, tremeluzia, fulgurava, incendiava-se toda, apoteoticamente» (...).
Video (5') > https://www.youtube.com/watch?v=TWsSnCUJ7c8

João Godim
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