
Há 83 anos, no dia 30 de Novembro, Portugal "perdia" um dos seus maiores poetas de todos os tempos: Fernando Pessoa (1888-1935), despedia-se da vida aos 47 anos de idade.
Deixou uma obra ímpar, em prosa e poesia, inéditos numa arca famosa que ainda hoje são estudados por especialistas nacionais e estrangeiros, e deu nome a um Prémio de Literatura, como o grande Camões.
Fisicamente, viveu poucos anos; no entanto, a sua personalidade dividiu-se por heterónimos, todos extraordinários, numa espécie de procura intensa pela verdadeira identidade, como expressou em vários períodos da sua criação literária.
NÃO SEI QUANTAS ALMAS TENHO
> Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.
> Fernando Pessoa


João Godim
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