Ver sempre mais fundo e mais longe
Entre os filósofos do século XX que mais se destacaram na defesa da ética e da dignidade do outro está Emmanuel Levinas (1906-1995), passam agora (a 25 de dezembro) 20 anos sobre a sua morte. A sua experiência pessoal, a sua formação intelectual e o seu labor filosófico, num tempo marcado por guerras e sofrimento, provam ainda hoje que o ser humano tem capacidades para se transcender ou alcançar altos níveis de realização. Seguir as propostas deste ilustre pensador é captar o essencial a que aspiramos sempre que a desilusão e o descrédito parecem rodear e intoxicar os nossos propósitos de agir em conformidade com a causa pública, por exemplo.

Por vezes, há a sensação que nada nem ninguém merece a nossa confiança, o nosso voto, porque se descobrem promessas vãs, tudo fica num impasse, com consequências nefastas para a coletividade. Pode-se dizer: "sempre foi assim, nada de ingenuidades!", mas quando se tem por base uma "ética" e um "respeito" pelo "outro", esta afirmação exige que não nos conformemos com a situação. É o que nos ensinam os filósofos, como Emmanuel Levinas, verdadeiros gigantes que nos fazem ver sempre mais fundo e mais longe. Por isso as suas razões não passam de moda e são lições eternas.
Emmanuel Levinas, que adotou a França para se exprimir filosoficamente e onde viveu a maior parte da sua vida, nasceu na Ucrânia, no seio de uma família judia. Cedo se familiarizou com os grandes clássicos russos, pois o seu pai era livreiro. Ainda na sua terra natal assistiu, à revolução bolchevique de Outubro, em 1917, com todos os tormentos que se conhecem. Na década de 20 mudou-se definitivamente para a Europa, onde desenvolveu estudos superiores com os principais mestres da altura, por exemplo, foi aluno de Edmund Husserl e de Martin Heidegger.

No início da II Guerra Mundial (1939), foi capturado e feito prisioneiro pelos alemães, durante cinco anos. A sua família foi também dizimada... Neste contexto, confrontou-se com os dramas humanos e "ódio do homem contra o outro homem" promovido pela ideologia nazi. No cativeiro, escreveu grande parte de sua obra "De l’Existence à l’Existant". Depois da guerra, dedicou-se ao ensino e a redigir os fundamentos do seu pensamento, sendo de destacar outro importante título - "Totalité et Infini".
Nas suas próprias palavras e memória histórica, jamais se poderá esquecer ou passar ao lado do “século que, em trinta anos, conheceu duas guerras mundiais, os totalitarismos de direita e de esquerda, nazismo e estalinismo, Hiroshima, os gulags, os genocídios de Auschwitz e do Cambodja. Século (XX) que finda na obsessão do retorno de tudo o que estes nomes bárbaros significam. Sofrimento e mal impostos de maneira deliberada, mas que nenhuma razão limitava na exasperação da razão tornada política e desligada de toda a ética”.

João Godim
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