É um consolo voltar ao passado, ao contexto de tantas personalidades que marcaram a nossa História, com exemplos e lições para os tempos vindouros, porque os alicerces ou princípios elementares da humanidade não passam de moda. Nestas circunstâncias, é bom e oportuno recordar o humanista português Damião de Góis, escritor, diplomata, historiador, guarda-mor da Torre do Tombo, autor da "Crónica de D. Manuel", preso pela Inquisição, que morreu em Janeiro de 1574.
Damião de Góis (1502-1574) nasceu em Alenquer e viveu numa Europa de grande diversidade cultural, vasto renascimento de ideias e de ideais, a par de certas intolerâncias e censuras, e conviveu com os notáveis do seu tempo, como Erasmo de Roterdão (1466-1536).
Na opinião de Pedro Roseta (antigo Ministro da Cultura, por ocasião do Congresso Internacional "Damião de Góis na Europa do Renascimento", Braga 2003): "Damião de Góis deixou, pela sua obra escrita e pelo exemplo da sua vida, um legado que pode inspirar o nosso tempo.
Por um lado, nas matrizes clássica, cristã, europeia, que o inspiraram, continuam actuais; mas a contemporaneidade da sua vida, do seu pensamento, dos seus valores, da sua abertura ao mundo, pode iluminar-nos nestas tentativas actuais de afirmação europeia de valores humanos, num mundo tentado pelo culto obsessivo do sucesso material e do imediatismo. Ele foi, na verdade, um verdadeiro cidadão europeu, muito antes de ser realidade a cidadania europeia (...)".
Damião de Góis foi grande em todas as missões que abraçou, apesar do espaço físico em que se moveu ter sido reduzido e a mentalidade que o rodeou mesquinha, até aos contornos "misteriosos" da sua morte.
Para se perceber um pouco melhor este assunto, sugerimos a leitura do livro "A Sala das Perguntas", um romance de Fernando Campos, em que o autor permite ao leitor seguir "Damião de Góis pela Europa do segundo quartel do século XVI" e conhecer "o Portugal contraditório da glória dos Descobrimentos, dos primeiros sinais da decadência e dos começos da Inquisição".
Fotos: Museu Damião de Góis, em Alenquer.

João Godim
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