Humanista português na Europa do Renascimento
A 30 de janeiro de 1574, morre o humanista português Damião de Góis, escritor, diplomata e historiador, autor da "Crónica de D. Manuel", preso pela Inquisição.
Natural de Alenquer (nasceu em 1502), é considerado o “Humanista português na Europa do Renascimento".

Conviveu com os espíritos mais esclarecidos e desempenhou cargos oficiais em vários países, especialmente como responsável pela feitoria de Flandres, em Antuérpia (Bélgica), onde foi escrivão e secretário; também desempenhou importantes missões na Holanda e nos países bálticos. Nestas viagens, teve a oportunidade de conviver com os maiores humanistas do seu tempo como Thomas More, Martinho Lutero, Alberto Dürer (que lhe pintou o retrato), Erasmo de Roterdão, Clenardo, André de Resende e Melanchthon. Frequentou as Universidades de Pádua e de Lovaina; escreveu diversas obras em latim e uma "Descrição da Cidade de Lisboa".
Durante a estadia em Pádua, Itália, contatou também de perto com os cardeais Bembo e Sadoletto, que confiavam nele para uma possível reconciliação entre o catolicismo e o protestantismo, dadas as boas relações que então mantinha com influentes personalidades.

Com tanta atividade e sabedoria, Damião de Góis foi ainda convidado pelo rei (D. João III) para assumir o cargo de tesoureiro da Casa da Índia, que recusou; no regresso a Portugal, foi ocupar o lugar de guarda-mor da Torre do Tombo, em 1548; e nos anos seguintes, foi incumbido de escrever a “Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel”, documento histórico que faltava no conjunto dedicado aos reis de Portugal, pois, antes, já tinha escrito a “Crónica do Príncipe D. João”.
Apesar do seu alto prestígio, Damião de Góis não era bem visto pelos poderes inquisitoriais da altura que desconfiavam das suas amizades intelectuais… Foi preso em 1571 e no ano seguinte condenado a prisão perpétua no mosteiro da Batalha; em 1574 morre na sua casa de Alenquer, ao que parece, assassinado.
A sorte e o infortúnio, a glória e o azar da vida de Damião de Góis estão bem retratados no romance “A Sala das Perguntas”, do escritor Fernando Campos (n. 1924…), autor de outras obras históricos como “A Casa do Pó” e “A Esmeralda Perdida”.

Casa onde nasceu Damião de Góis, em Alenquer
Vale a pena ler “A Sala das Perguntas”, seguir os passos de Damião de Góis pela Europa do segundo quartel do século XVI e conhecer o “Portugal contraditório” da época das Descobertas, dos primeiros “sinais da decadência” e dos inícios da Inquisição ou Tribunal do Santo Ofício entre nós. Também muito interessante, para uma leitura completa sobre a sua pessoa, recomenda-se o livro "Damião de Góis", publicado pela Fundação Calouste Gulbenkian, da autoria de Elisabeth Feist Hirsch.

João Godim
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