A 2 de Julho de 1969, regressava a Portugal D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto (entre 1952-1982), depois de dez anos de exílio (1959-1969). A permissão foi dada pelo Governo então chefiado por Marcello Caetano, mas A PIDE mantêm-no sob vigilância, até 1974.
Uma das figuras mais ilustres da Igreja Católica portuguesa no século XX, D. António Ferreira Gomes caiu em desgraça quando teve a ousadia de escrever uma carta (13 de Julho de 1958) ao presidente do Conselho, Oliveira Salazar, em que denunciava o cerceamento das liberdades e outras situações menos edificantes para os direitos cívicos, sociais e políticos. O ambiente político era de eleições presidenciais, com Humberto Delgado em grande popularidade... .
A partir daí, D. António foi obrigado a exilar-se (Espanha primeiro e depois Roma) e proibido de voltar à sua diocese. Participou no Concílio Vaticano II (1962-1965), com intervenções relevantes.

O seu lema era: «De joelhos diante de Deus, de pé perante os homens». No dizer de D. Carlos Moreira Azevedo (especialista na área da Cultura e da História eclesiástica), D. António Ferreira Gomes era um «homem livre. Configurando a liberdade em referência ao Absoluto, defende os direitos humanos em tom profético, com intransigência de génio. Entusiasma-se com o II Concílio do Vaticano e percebe as resistências interiores à mudança de perspetiva, exigida pelo fim do constantinismo. A dimensão sócio-política das suas reflexões integra-se perfeitamente e unicamente na missão pastoral da Igreja», mas a sua intervenção cívica e desafiadora para os poderes da altura "pagou um preço bem alto".
D. António Ferreira Gomes era natural de Penafiel (n. 1906) e faleceu em 1989, em Lisboa, depois de merecer reconhecidas honras por parte do regime democrático. Existe uma Fundação com o seu nome, que vale a pena consultar: www.fspes.pt

João Godim
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