O mestre para Fernando Pessoa
A 18 de Julho de 1886, regista-se a morre do poeta Cesário Verde, aos 31 anos, vitimado pela tuberculose. Voz sublime, pioneiro no tratamento realista dos seus versos e "incontestável precursor da modernidade na poesia portuguesa", Cesário Verde "introduziu" nos poemas "elementos do dia a dia, situações humanas no trabalho" e "tipos sociais" menos considerados na sociedade do seu tempo. É um "poeta contagiado pelo presente, pelo espaço transitório (...), pela presença de um olhar em movimento", na opinião do especialista Ricardo Daunt.
Verde (1855-1886), foi saudado por Fernando Pessoa (1888-1935) como Mestre. A sua obra reflecte as sensações do mundo urbano em que viveu, em particular as "ruas de Lisboa" que calcorreou vezes sem conta, quando ia a caminho do trabalho, na loja de ferragens e quinquilharias (loja de comércio familiar) localizada na rua dos Fanqueiros. Os seus poemas são pinturas concretas, narrativas do que acontece aqui e agora, aprendizagem da atenção ao que nos rodeia...
NUM BAIRRO MODERNO
Dez horas da manhã; os transparentes
Matizam uma casa apalaçada;
Pelos jardins estancam-se as nascentes,
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua macadamizada.
Rez-de-chaussée repousam sossegados,
Abriram-se, nalguns, as persianas,
E dum ou doutro, em quartos estucados,
Ou entre a rama do papéis pintados,
Reluzem, num almoço, as porcelanas.
Como é saudável ter o seu conchego,
E a sua vida fácil! Eu descia,
Sem muita pressa, para o meu emprego,
Aonde agora quase sempre chego
Com as tonturas duma apoplexia.
(...)
LOIRA
Eu descia o Chiado lentamente
Parando junto às montras dos livreiros
Quando passaste irónica e insolente,
Mal pousando no chão os pés ligeiros.
O céu nublado ameaçava chuva,
Saía gente fina de uma igreja;
Destacavam no traje de viúva
Teus cabelos de um louro de cerveja.
(...) in "O Livro de Cesário Verde"

João Godim
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