Reforma da mentalidade
António Sérgio, autor de "Ensaios" e "O Problema da Cultura e o Isolamento dos Povos Peninsulares", entre outros títulos de referência contemporânea, morreu há 50 anos, no dia 24 de Janeiro.
Considerado um dos maiores pensadores portugueses de todos os tempos, António Sérgio (1883-1969) abordou todos os temas da modernidade, como filósofo, historiador, sociólogo, crítico, pedagogo e político.
Personalidade multifacetada, no campo da cultura ensaiou e foi pioneiro em muitas áreas destinadas à promoção das populações e ao desenvolvimento da sociedade do seu tempo. Como disse Joel Serrão, ele tinha como "imperativo ético ensinar as gentes a pensar com inteligência, e em termos de agora e de futuro".

António Sérgio pertenceu aos principais movimentos e revistas que marcaram o século XX português: A Águia, do movimento Renascença Portuguesa, Pela Grei, Seara Nova (de que foi director), Grupo da Biblioteca Nacional... Participou em várias polémicas relacionadas com a "evolução ideológica" entre 1910 e 1960.
Foi, episodicamente, Ministro da Instrução Pública da Primeira República (em 1923); e dedicou-se ainda a analisar as obras de alguns dos nossos mais importantes escritores - Camões, António Vieira, Antero de Quental, Eça de Queirós, Oliveira Martins...
Entre as sua principais obras, destaca-se o conjunto de "Ensaios", em muitos volumes, publicados pela Livraria Sá da Costa Editora após a sua morte, numa edição crítica orientada por reputados especialistas, por exemplo Vitorino Magalhães Godinho, Joel Serrão e Rui Grácio, como é o caso do volume intitulado "Democracia", que inclui textos/diálogos de "Doutrina Democrática", uma "Alocução aos Socialistas" e "Cartas do Terceiro Homem".

António Sérgio (de Sousa), nasceu em Damão (Índia Portuguesa), onde o pai era governador, descendente de familiares ligados à Marinha; por algum tempo, ainda jovem, ocupou a sua vida como "oficial da Marinha"; mas, também precocemente, as suas qualidades intelectuais mobilizaram-no para outras ondas e mares mais interessantes.
O seu ideal, no fundo, era a "reforma da mentalidade", intento que activamente defendeu através dos inúmeros escritos e acção cívica, mesmo à custa da perseguição, censura e prisão a que foi sujeito.

João Godim
FREELANCER
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