A "diva do Fado", Amália Rodrigues (1920-1999), nasceu há 95 anos. Amália (da Piedade Rebordão) Rodrigues, viu a luz do dia em Lisboa, por acaso, quando os seus pais (residentes na Beira Baixa) visitavam os avós maternos, na Rua Martim Vaz, freguesia da Pena. No registo do seu nascimento consta a data de 23 de Julho de 1920, mas, pelo facto de existirem algumas dúvidas quanto ao dia exacto, a fadista escolheu o dia 1 de Julho como data de aniversário.
Após poucos meses na capital, na procura de melhores condições de vida, os seus pais regressaram a casa, ficando Amália, então com pouco mais de um ano, ao cuidado dos avós.
Entre os 6 e os 19 anos de idade, vive no bairro de Alcântara, onde aprendeu e trabalhou em vários ofícios, foi costureira, bordadeira, operária de uma fábrica de chocolates e rebuçados, e vendedora de fruta pelas ruas do cais de Alcântara, para ajudar no sustento da família.
A par destas actividades, desenvolveu o seu talento e gosto pelas cantigas desde muito cedo, a ponto de ser a escolhida aos 15 anos para interpretar o "Fado de Alcântara", na Festa dos Santos Populares organizada pelo seu bairro.
Aos 18 anos, Amália faz audições para o "Concurso da Primavera", onde cada bairro apresentava as suas concorrentes para a escolha da "Rainha do Fado" de 1938; apesar de não participar neste concurso, conhece aquele que viria a ser o seu primeiro marido, o guitarrista amador Francisco da Cruz; o casamento não dura muito tempo, mas deixa especiais marcas quanto ao seu destino artístico (Amália voltará a casar, em 1961, no Brasil, com o engenheiro César Seabra).
A sua estreia profissional aconteceu também rapidamente, com inesquecíveis actuações em vários locais da cidade de Lisboa, em partícular no Retiro da Severa. Tornou-se um ícone da verdadeira canção portuguesa - o Fado, com as características que lhe são inerentes: o sentimento da Saudade e o som da Guitarra. Amália tornou-se então numa embaixadora da cultura lusíada no mundo, desde Paris a Nova Iorque, de Berna a Roma, de Trieste a São Paulo, de Tóquio a Televive..., até aos confins da terra. Cantou poemas de grandes autores, como Camões, David Mourão Ferreira, Pedro Homem de Mello, Ary dos Santos, Manuel Alegre, José Régio, Alexandre O’Neill – nomes consagrados da literatura portuguesa. Teve a colaboração de um grande compositor, responsável pelos maiores sucessos da "rainha do Fado): Alain Oulman (1928-1990), de família judia/francesa, natural do Dafundo (arredores de Lisboa), com alma bem portuguesa.
A revolução de Abril foi, na sua fase inicial, madrasta para com Amália.
Cantou em várias línguas e editou milhões de discos. Conviveu com o povo e grupos de intelectuais, fez ainda cinema, deixou uma significativa herança para as novas gerações de fadistas e foi caluniada no "25 de Abril de 1974"... Mas nada, nem ninguém, consegue apagar a sua personalidade de lutadora e grande intérprete do Fado. Se nos é permitido dizer: Amália está para o Fado como Maria Calas está para a Ópera.
Amália Rodrigues morreu em Outubro de 1999 e está sepultada no Panteão Nacional.

João Godim
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