Era uma personalidade discreta, mas ativa e profunda no campo da cultura, da cidadania e da atenção que concedia aos pormenores do quotidiano das pessoas, para melhor decifrar o universo e propor pistas acessíveis a todos em termos de felicidade: Alberto Vaz da Silva (1936-2015) morreu no início deste mês e a sua morte não foi tema de grandes títulos ou publicidades. Para quem o conhecia de perto ou através dos livros que escreveu, deixou um vazio difícil de preencher, como já acontecera antes com a sua mulher - Helena Vaz da Silva (1939-2002), de quem persistem imensas saudades.
Alberto Vaz da Silva pertencia a uma geração paradigmática no nosso país, no decorrer do século XX. Advogado de profissão, foi na intervenção cívica, na escrita e na interpretação das palavras, como grafólogo, que a sua competência mais se fez sentir. Já reformado, passou a dedicar-se completamente à sua paixão e dirigia o Gabinete de Grafologia do Centro Nacional de Cultura (CNC). Integrou o grupo dos chamados "católicos progressistas", na década de 60, animados pelo Concílio Vaticano II, com João Bénard da Costa, Pedro Tamen, Nuno Bragança, António Alçada Batista, entre outros.

Numa crónica publicada no Expresso, o poeta José Tolentino de Mendonça comparou Alberto Vaz da Silva aos grandes que marcaram o nosso tempo. Eis alguns excertos desse texto:
«(...) não é estranho que (Alberto Vaz Silva), sendo licenciado em Direito, ele se tenha tornado um poliédrico e colossal humanista; que tendo exercido advocacia, por mais de trinta anos, ele se tenha sentido renascer no encontro com Rosaline Crepy, sua iniciadora no saber da grafologia, e a partir daí mudado de vida; que tenha viajado pelo hemisfério sul (e por um sem-número de hemisférios interiores) para ver grupos de constelações, como outros viajam pelo interior de bibliotecas ou de árduos e fascinantes problemas matemáticos.
Ele vislumbrou uma nova relação com o real, feita não já de oposições e distâncias, como se a vida não fosse um mistério único, mas sublinhando corajosamente os traços de união, os hífens inesperados, as continuidades. E assim nos mostra que não há pequeno ou grande, não há cósmico nem quotidiano, não há interno ou exterior: por todo o lado e em todas as coisas está, pelo contrário, latente a mesma espantosa proposta que a vida em si mesma é.
(...) Para homens como Alberto Vaz da Silva, a italiana Cristina Campo reserva um nome: imperdoáveis. Isto é, aqueles que possuem e definem um estilo, os habitados por uma força profunda, por um carácter próprio, por uma sabedoria irremovível, aqueles que desenham com as suas vidas um mapa de tal forma original que se torna necessário à viagem dos outros».
Video (16') > https://www.youtube.com/watch?v=4HklalK4zvY

João Godim
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