O jornalismo sempre foi uma profissão extremamente questionada, ou porque relata o óbvio ou porque a narrativa, na opinião do leitor, dá relevância mais a uma partícula que a outra. Sempre foi e sempre será assim. Cada notícia é única, não há notícias iguais, mesmo quando a matéria tenha igual centro de gravidade. A notícia pela notícia não se adapta mas pode ser dada sob várias formas, o que é mau.
Vem isto a propósito da presente visita do presidente de Portugal à China comunista. Marcelo Rebelo de Sousa é católico (é dos poucos portugueses que reza o terço todos os dias) e é social-democrata de corpo inteiro. A república da China é das mais ricas e das mais pobres do mundo (paradoxos), de um lado apresenta extrema riqueza e do outro lado extrema pobreza. O comunismo chinês é pai de outros comunismos espalhados pelo mundo e as imposições castradoras da liberdade de expressão é um dos seus maiores defeitos. Já o PCP, na prática, pouco tem a ver com o comunismo chinês.
Marcelo esteve na cidade proibida, na muralha da China e na praça de Tiananmen onde em junho de 1989 o exército chinês avançou com carros blindados sobre manifestantes causando mais de dez mil mortos, esmagados, baleados e perfurados por baionetas. Um massacre condenado por Portugal. Agora, nesta mesma praça, o Chefe de Estado português ali esteve e nem uma palavra disse. O sangue e os mortos naquele mesmo chão por onde passou, jamais deixará de fazer parte como um dos maiores massacres contra a liberdade.
Nem os jornalistas que o acompanharam deram a notícia. Terão comentado entre cautelosos e medrosos silêncios não fossem os “bufos” ouvir e haver reações indesejáveis. A visita de Marcelo Rebelo de Sousa à China teve de obedecer ao programa fixado, com elogios ao regime e à grande potência mundial, a dar explícito apoio à governação comunista que em Portugal Marcelo tanto crítica e é assumido opositor.
Como diz o ditado popular: Em Roma, sê romano; Na China, sê chinês.

João Godim
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