Faz, hoje, 50 anos - 26 de Setembro de 1968 - que Marcelo Caetano foi nomeado presidente do Conselho de Ministros. Sucedia no cargo ao então "ditador" e principal artífice do "Estado Novo" António de Oliveira Salazar. A data não é assinalada, hoje em dia, mas em abono da verdade histórica deverá ser lembrada como uma primeira etapa de muitas mudanças levadas a efeito no nosso país, nas últimas três décadas do século XX, com apoios, contestações e tudo o mais que se prevê nestas circunstâncias.
Marcelo Caetano tinha então 62 anos (nascera em 1906) e era um prestigiado professor catedrático da Faculdade de Direito na Universidade Clássica de Lisboa, e autor de importante legislação administrativa, entre outros conteúdos jurídicos; ficou como governante até 1974 e, no entanto, a sua acção deixou marcas em várias áreas da governação, a par das dissidências e oposições suscitadas na altura.

Marcelo Caetano já tinha servido o anterior regime - fora Ministro da Presidência entre 1952 e 1958, entre outros cargos de relevo, mas sempre praticou um certo distanciamento, tendo "personificado ao longo da década de 1960, dentro do Regime, uma atitude de dissidência em relação às políticas de Salazar", diz o historiador Rui Ramos no livro Marcelo Caetano - Tempos de Transição.
Nesta mesma obra, que recolhe depoimentos de várias personalidades ligadas ao anterior regime e investigadores em geral, António Reis (fundador do Partido Socialista e professor universitário) considera que faltou tempo a Caetano para levar por diante uma política que agradasse a todos, da direita mais conservadora aos liberais inovadores, além dos condicionalismos a nível internacional:
> É provável que a perda de poder de Marcelo Caetano se deva, não à sua suposta ruptura em relação ao salazarismo, como diriam os velhos salazaristas, nem ao seu 'falhanço' em democratizar, como argumentam os 'liberais', mas sobretudo à dificuldade em manter os equilíbrios políticos dentro do Regime numa época que, independentemente da vontade de quem governa, era mesmo de 'transição'.
Neste contexto, Reis lembra que: "Entre as décadas de 1950 e 1970, e Europa Ocidental passou por uma das maiores transformações económicas, sociais e culturais da sua História", e (...) "entre 1972 e 1973, essa grande mutação atingiu um ponto de crise".

Marcelo Caetano esteve preso, durante três semana, numa área restrita do Palácio de São Lourenço (Funchal), Chegou à Madeira a 26 de Abril de 1974 donde partiu para o Porto Santo a 20 de Maio e, neste mesmo dia, seguiu para o Brasil. Faleceu em 1980, no Rio de Janeiro.
No plano nacional, já toda a gente sabe o que aconteceu... a urgência em tomar certas decisões...a questão do Ultramar... Apesar de tudo, não se podem menosprezar aqueles tempos "marcelistas" que permitiram chegar ao "25 de Abril de 1974"... Como sublinha a famosa frase do filósofo espanhol Ortega e Gasset: "Eu sou eu e a minha circunstância e se não a salvo, não me salvo a mim mesmo".

João Godim
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