Há problemas, muitos. E há o problema. Muitos se interrogam quais os seus maiores problemas. Outros sobre os maiores males da humanidade. Maior número tenta indicar as soluções. Nas cargas de publicidades de banha da cobra da TV, agora a pulular também nas redes sociais móveis, oferecem-se soluções para tudo; não ao preço da chuva. Sobre remédios eficientes menos se interrogam e menos ainda aceitam os remédios ao seu alcance para alguns males.
Na Semana Santa são anunciados os três maiores problemas que os homens enfrentam: pecado, sofrimento/doenças, morte. Todos entendem que o sofrimento e a morte sejam grandes males; para alguns, os maiores. Com a luz do Alto, muitos creem que o problema humano de topo, o maior, (único?) é o pecado, todos os pecados e os pecados de cada pessoa. Que pecados, afinal? Não roubar e não matar, vem à mente de muitos. Mas, é só matar violentamente, com armas?
A Madre Teresa dizia que o maior mal do mundo era o aborto. Comprar e vender pessoas, escravizar, abusar não é também tirar vida, matar? Mas, mal maior, o pecado, porquê? O pecado é ato de idolatria: o pecador põe-se acima de Deus e da sua ordem da criação e afirma que o absurdo é lógico. «Não morrereis; (…) sereis como Deus» (Gen 3, 4-5). E quem poderá repor na ordem real o mal feito com tanto orgulho?
As interrogações sobre o sofrimento e a morte circulam continuamente; e deixam outras dúvidas e incertezas no ar a ligar-se a outras questões e assim ad infinitum. S. Paulo é claro: o salário (merecido, o prémio) do pecado é a morte (Rom 6,23). Fica a questão principal do remédio para os males que cada pessoa enfrenta: doenças, sofrimentos e morte.
Quando no dia 11 de abril o papa Francisco se ajoelhou perante os governantes do Sudão a pedir que não se matasse mais; 400 mil mortos já era de mais, levou a ousadia de usar o remédio de beijar os pés a pedir que se entendessem, fizessem a paz e não se matasse mais. Deixou no ar questões e escândalo.
Via Sacra no Pico da Torre, em Câmara de Lobos (Madeira)
Nunca nenhum papa fez assim… a não ser o Papa dos papas. Não é o remédio, mas fará parte dele. Ouve-se com frequência a expressão: ser parte do problema e ser parte da solução. Ninguém é a solução total para o pecado, os sofrimentos e a morte. A semana Santa ajuda-nos a aceitar ser parte da solução.Aparece estes dias um episódio, sinal de remédio, mas visto como problema pelo sumo Sacerdote, Caifás, na ressurreição de Lázaro. «Se O deixamos continuar assim, todos acreditarão n’Ele; e virão os romanos destruir o nosso lugar santo e toda a nação» (Jo 11,45). Então, disse-lhes: «é melhor para nós morrer um só homem pelo povo do que perecer a nação inteira?» (Jo 11, 50). Dizia certo, como profeta, mas não entendia o que dizia, como os que mataram aqueles 400 mil.
Não é qualquer homem o remédio do mal maior, o (s) pecado(s) do mundo. Só aquele Deus-Homem, Jesus, que Caifás não quis aceitar, podia, de facto, salvar a nação, e «congregar na unidade todos os filhos de Deus que andavam dispersos». Jesus Cristo foi, na verdade, o único que, ao oferecer-se para morrer, foi o remédio do pecado, como João Batista já tinha anunciado: «eis o Cordeiro de Deus, o que tira o pecado do mundo».
Morte de Deus-Homem feita remédio na cruz! Nenhuma pessoa, por especialista e competente que seja, pode remediar de vez, sejam quais forem as tecnologias que utilize, os sofrimentos, as doenças, a morte, e menos ainda a segunda morte, a eterna (cf. Apo 20, 6 e 14).Os que aceitam Jesus e se unem a ele com os seus sofrimentos e morte podem fazer parte da salvação. Maximiliano Kolbe ofereceu a sua vida e salvou outro homem da primeira morte; o Papa ofereceu o seu serviço de humildade e oração para fazer parte do remédio do pecado, como todos podem fazer parte se aceitarem completar a Paixão, unindo-se a Cristo, sofredor e ressuscitado (cf. Col 1, 24). Entretanto, estava próxima a Páscoa dos judeus e muitos subiram da província a Jerusalém, para se purificarem, antes da Páscoa.
Esta Páscoa dos judeus purificava por fora, era um remédio mas não era a cura do pecado alojado no coração. Só o enxerto da Páscoa cristã na humanidade se tornou Redenção, aquela que todos procuram mesmo sem consciência clara de o fazer.«Procuravam então Jesus e perguntavam uns aos outros no templo: «Que vos parece? Ele não virá à festa?» (Jo 11, 56). A festa maior, da Nova Aliança, do Reino de Deus ia Jesus realizá-la na Ceia Eucarística; prometeu celebrá-la de novo no Reino de Deus já após a entrega da sua vida ao Pai com todos nós que aceitemos unir-nos a Ele para a celebrar nesse Reino. «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lc 43,46).
Entregar-se ao Pai é fazer parte da solução dos males maiores da humanidade e concorrer para as verdadeiras «Boas Festas da Páscoa» para todos como repetimos estes dias.
> Funchal, Semana Santa-Páscoa, 2019 - Aires Gameiro

João Godim
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