Quem és tu, ó democracia?
É uma frase emblemática da peça Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, quando o Romeiro apresenta-se como um simples peregrino, mas na verdade é o próprio D. João de Portugal em pessoa, no regresso de um cativeiro de 20 anos e que já nem a mulher o reconhece: "Romeiro, romeiro, quem és tu?" ... Pergunta simbólica, carregada de maus presságios, mistérios, desgraças e medos, e que nos nossos dias talvez possa suscitar uma certa reflexão sobre o actual momento da política e governação nacionais.
As escolhas eleitorais são feitas de quatro em quatro anos, mas dificilmente dão sossego e deixam os cidadãos em paz. Promete-se muito e de tudo, desfaz-se o que foi feito anteriormente e investe-se muito nas inimizades partidárias, contra o bem comum, numa argumentação cada vez mais confusa e conflituosa. "É a democracia", são "jogos de poder", diz-se num tom resignado ou sem paciência para atender aos "importantes" da sociedade.
Na verdade, quando se luta pela sobrevivência, não há lugar para os grandes pensamentos ou reflexões; a maioria da população está arredada de certos direitos, como o direito à cultura, a uma vida mais consentânea com os seus interesses individuais, porque ganha pouco e não pode fazer outra coisa a não ser mais trabalho, com toda a sorte que já conhecemos...
Como no passado, hoje também se deve perguntar: "Quem és tu?" Quem é este que se apresenta como líder, carismático político ou competente para resolver todos os problemas? "Quem és tu", cheio de boas vontades e propostas que, à partida, sabes não irás cumprir? "Quem és tu" que, passados 45 anos de uma "revolução democrática", ainda pensas num paraíso de palavras, como se nada durante este tempo tenha progredido ao nível das mentalidades e das novas gerações?
Quem és tu, ó democracia? Não faltam respostas ajuizadas a esta questão... Lembramos, por exemplo, o que a este propósito dizia Eça de Queirós (1845-1900): "Nas nossas democracias a ânsia da maioria dos mortais é alcançar em sete linhas o louvor do jornal.
Para se conquistarem essas sete linhas benditas, os homens praticam todas as acções - mesmo as boas"; ou ainda do autor de Os Maias: "O meu ideal político é a democracia, para que todo o homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado"; "Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo".
Quem és tu?... Que esta questão nos faça pensar a todo o momento, ponto final.

João Godim
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