Ser ou não ser, essa é a questão
Assinala-se, hoje, 23 de abril, o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, entre outras efemérides, das quais se destacam também: o nascimento de William Shakespeare, no ano de 1564, e a data da sua morte, em 1616; e a morte de Miguel de Cervantes, autor de "D. Quixote", em 1616. Centenários grandiosos, de autores imortais, que se tornaram famosos através de uma obra literária indicada para todos os tempos.
Entretanto, conhecer Shakespeare em português, poeta e dramaturgo inglês que viveu há 400 anos, é agora mais fácil do que nunca, mercê de uma iniciativa do Teatro Nacional de São João, no Porto, através de um seminário orientado pela professora universitária e poetisa Ana Luísa Amaral.
Assim acontece todos os meses, até junho próximo, aos sábados, através da “leitura atenta” ao longo de seis horas, como revelou a autora em recente entrevista: “Eu tentei cobrir, dentro da vasta obra de Shakespeare, diferentes peças que fossem representativas das tragédias e das comédias. Vamos começar com ‘O Mercador de Veneza’, que é uma grande comédia, e que é uma comédia problemática de Shakespeare, porque já tem elementos trágicos; continuamos com uma grande tragédia, que é o ‘Rei Lear’.
Passamos para a comédia romântica, com ‘A Tempestade’, depois para uma tragédia histórica românica, que eu acho que era necessária, que é ‘Júlio César’, uma peça muitíssimo atual. Em penúltimo lugar, outra grande tragédia, ‘Macbeth’, que é profundamente política.
E para terminar, aquela que é considerada uma das grandes tragédias de Shakespeare, que é de amor, provavelmente a mais conhecida do grande público, que é ‘Romeu e Julieta’". A escolha não é simples. “Era possível que estas seis sessões fossem todas só sobre um soneto”, garante a autora. “Há outras grandes tragédias. Eu podia ter escolhido ‘Otelo’, eu podia ter escolhido ‘Hamlet’, e não, porque penso que as peças escolhidas, de uma forma ou de outra, dialogam muitíssimo com o nosso tempo”, sublinha.
Ana Luísa Amaral já leu e ensinou muito Shakespeare. A professora associada da Faculdade de Letras da Universidade do Porto em Literatura e Cultura Inglesa e Americana, agora aposentada, já o traduziu, também.
Recentemente publicou “31 sonetos de Shakespeare” (Relógio d’Água) e continua a surpreender-se com o autor. “É que Shakespeare tem tudo. Encontra lá tudo. As mais básicas emoções humanas – o ódio, o amor, a paixão, o ciúme, a inveja, a ambição – tudo isto está brilhantemente trabalhado em Shakespeare, através do quê? Da linguagem”, revelou a autora que recentemente esteve no Funchal, como convidada do VI Festival Literário da Madeira.

"Ser ou não ser, essa é a questão: será mais nobre suportar na mente as flechadas da trágica fortuna, ou tomar armas contra um mar de obstáculos e, enfrentando-os, vencer? Morrer — dormir, nada mais; e dizer que pelo sono se findam as dores, como os mil abalos inerentes à carne — é a conclusão que devemos buscar. Morrer — dormir; dormir, talvez sonhar — eis o problema: pois os sonhos que vierem nesse sono de morte, uma vez livres deste invólucro mortal, fazem cismar. Esse é o motivo que prolonga a desdita desta vida." (William Shakespeare, in "Hamlet").
Já Miguel de Cervantes defende que "a liberdade é um dos dons mais preciosos que o céu deu aos homens. Nada a iguala, nem os tesouros que a terra encerra no seu seio, nem os que o mar guarda nos seus abismos. Pela liberdade, tanto quanto pela honra, pode e deve aventurar-se a nossa vida".
> Ler é um bem precioso, para todos, em todas as idades.

João Godim
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