Sabedoria e vivência sénior
Teolinda Gersão, escritora e catedrática jubilada da Universitária Nova de Lisboa, vai receber, no próximo mês de Novembro, o Prémio Fernando Namora, instituído pela Estoril Sol, pelo seu romance “Passagens” (publicado em 2014 pela Sextante). Esta é a segunda vez que a escritora, actualmente com 75 anos, recebe este galardão, pois, em 2001 foi também distinguida pelo romance “Os teclados”.
Teolinda Gersão nasceu em Coimbra, mas estudou Línguas e Literaturas Germânicas, Românicas e Anglísticas, nas Universidades em Tubingen, Berlim e em Coimbra. Enquanto docente universitária leccionou Literatura Alemã e Literatura Comparada. Desde 1995 que se dedica exclusivamente à literatura, com assinalável sucesso.
O júri desta 18.ª edição do Prémio Fernando Namora foi constituído por Guilherme d'Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura, José Manuel Mendes, pela Associação Portuguesa de Escritores, entre outras entidades. Na acta, referindo-se ao romance "Passagens", o júri salientou "tratar-se de uma obra que foca temas de grande actualidade, com um número muito significativo de personagens, com uma economia de texto sóbria e ponderada, assumindo uma crítica social ligada à heterogeneidade das realidades familiares contemporâneas".
Teolinda Gersão "trata o tema das passagens não apenas de cada ser humano para com os outros, mas também na relação entre a vida e a morte - numa atmosfera poética, que muitas vezes surpreende o leitor", sublinhou o júri. "O ideal humano e social de cada personagem, designadamente, dos cuidadores e dos doentes, está fortemente ancorado na capacidade de compreender as diversas facetas da vida", acrescentou o júri.
Em síntese, trata-se de uma obra singular em que se revelam: "Os segredos das famílias. As mentiras, as histórias falsas, que dão origem a memórias falsas. Os grandes erros que alguém comete, e são pagos pelas gerações seguintes. Mesmo que se queira apagá-los, silenciá-los, estão lá. E voltam à superfície para serem pagos."
A par da escrita criativa, Teolinda Gersão desenvolve também a crítica literária. E nos últimos trinta anos a sua obra de romancista tem sido bastante reconhecida: recebeu duas vezes o prémio de ficção PEN Clube, atribuído ao seu livro de estreia, "O Silêncio", em 1981; e ao romance "O Cavalo de Sol", em 1989. Foi também galardoada com o Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores em 1995 e, na Roménia, com o Prémio de Teatro Marele do Festival de Bucareste (adaptação da obra ao teatro) com o romance "A Casa da Cabeça de Cavalo".
Em 2003, o seu livro "Histórias de Ver e Andar" recebeu o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco, da Associação Portuguesa de Escritores. À edição inglesa do seu livro "A Árvore das Palavras” foi atribuído o Prémio de Tradução 2012.
Estamos perante uma escritora de referência no actual quadro da literatura portuguesa, com uma grande vantagem para os leitores, pois, encontram na sua obra uma maturidade e uma sabedoria incalculáveis, fruto da sua formação intelectual e também da sua vivência sénior. Vale a pena ler ou reler Teolinda Gersão.

João Godim
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