A escrita é uma forma
de comunicar com os outros
João Carlos Abreu nasceu no Funchal em 1935 (fará 80 anos no próximo mês de Dezembro). Estávamos à beira do conflito mundial (1939-1945), prenúncio de vivências profundas e causa de muitas interrogações existencialistas. Na década em que o "Modernismo" na literatura portuguesa se afirmava cada vez mais, com a Revista "Presença" de José Régio, Carlos Queirós, Raúl Leal, Luís de Montalvor, Miguel Torga, Edmundo Bettencourt...

A década em que se despedia deste mundo Fernando Pessoa (1888-1935), o grande poeta dos heterónimos... E ainda outro grande poeta, Teixeira de Pascoaes, enveredava pela biografia, com os livros "São Paulo" e "São Jerónimo e a Trovoada".
A década em que a Madeira também foi cenário de protestos (a célebre Revolta de 1931, protagonizada essencialmente por militares exilados pelo novo regime do Estado Novo, como o general Sousa Dias). E em que o poeta João Carlos Abreu, atraído pela dimensão do mar, crescia a olhar «os navios brancos (...) que são caminhos enraizados de amizades paridas no ventre de todas as terras por onde ando», revela num dos seus escritos. E continua a viver do mar e das memórias, com a paixão dos amantes inseparáveis, e a escrever sempre, porque entende que «a escrita é uma forma de realização, um modo especial de transmitir o que vai na alma e de comunicar com os outros».

Comunicador nato e aberto ao mundo, João Carlos Abreu ostenta no seu percurso pessoal um currículo de alto valor: viveu em Londres, Roma (onde estudou jornalismo) e Bolzano (onde estudou Gestão de Empresas); fez ainda alguns cursos na área das relações públicas, em prestigiadas instituições norte-americanas; iniciou uma carreira jornalística aos 17 anos, com uma reportagem sobre a chegada de um navio cruzeiro à Madeira, e foi um dos poucos jornalistas portugueses no Concílio Vaticano II (1962-1965); trabalhou em vários hotéis, com o pelouro da dinamização turística e cultural, foi o principal responsável pela recuperação da Zona Velha da Cidade do Funchal, na década de 70, com a abertura de uma tertúlia na "Romana"; cidadão consciente dos direitos fundamentais.

Foi governante durante vários anos (nos executivos de Alberto João Jardim), como Secretário regional do Turismo e Cultura (1984-2007), sendo da sua autoria os cortejos carnavalescos, a Festa da Flor, o Festival do Atlântico e a Festa do Vinho, entre outros eventos; e criou o "Centro Cívico e Cultural - Memórias de João Carlos Nunes Abreu", na Calçada de Santa Clara, onde se expõe um vasto espólio de peças adquiridas ao longo das suas inúmeras viagens, que retratam a sensibilidade artística e intelectual do dador.
Quanto aos livros da sua autoria (em prosa e em verso), João Carlos Abreu não deixa de escrever, apesar da sua identidade sénior. E o mesmo se diga em relação ao prazer da leitura em geral. «São algo imprescindível. Nada supera o prazer de folhear um livro e de interiorizar o seu conteúdo. Nem mesmo a internet», disse um dia.
O ser poeta, é outra marca que está bem impressa na sua vida, desde que nasceu, por muitos mundos que tenha conhecido e apreciado, e isso deve-se ao mar... «O responsável pela minha veia poética. A memória da minha infância diz-me que foi este mar que me fez poeta», garante.
Alguns títulos de João Carlos Abreu a recordar: "Da Ilha e de Mim"; "Água no Mar"; "Ilha a Duas Vozes"; "Turismo das Culturas"; "Dos Deuses ao Turismo dos Nossos Dias"; "Dona Joana Rabo de Peixe"; "Barca sem Rumo"; "Poemas do Silêncio"; "Mete-me no teu Coração"...
Música > https://www.youtube.com/watch?v=FCvzboAf-KQ
NB: Cavaquinho que na Madeira é conhecido por Braguinha ou Machete.

João Godim
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