Os grandes pensadores
e escritores da idade d'ouro
O saudoso professor Agostinho da Silva (1906-1994) costumava dizer que «o homem não nasceu para trabalhar, mas para criar». E que a vida humana se deve reger por três "S": «Sustento, Saber e Saúde». Com base nesta asserção de um sábio, podemos acrescentar que tudo o mais se deve subordinar a esta profunda realidade, porque viver deve dar gozo, felicidade e capacidade para se ultrapassarem as rotinas necessárias à sobrevivência natural. A "criação" é a meta para a qual devemos apontar todos os esforços e interesses essenciais. Assim diziam também os sábios da antiga Grécia, que optaram pela "Filosofia" (amor pelo saber) e viveram com grande admiração (contemplação) a grandeza do universo.
Nos nossos dias, no mesmo interesse pelo verdadeiro saber e sentido de vida defendidos pelo professor Agostinho da Silva podem-se incluir, na nossa opinião, os grandes escritores e pensadores, como podemos testemunhar através de autores sexagenários que, por exemplo, estão entre nós e são particularmente estimados por muitos leitores.
Falamos hoje de João de Melo, um dos nomes mais aclamados da literatura portuguesa contemporânea, natural de São Miguel, Açores (n.1949). Ficcionista, poeta e investigador literário, é formado em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa, foi professor do ensino secundário e superior por largo tempo, mas a sua experiência da guerra colonial, em Angola, entre 1971 e 1974, tornou-se marcante no testemunho da escrita dos seus livros, bem como a sua condição de ilhéu.
Por exemplo, os títulos: Histórias da Resistência (1975), A Memória de Ver Matar e Morrer (1977) ou Gente Feliz com Lágrimas (1988), tornaram-no bem conhecido do grande público, com reconhecido prestígio entre os seus pares, obtendo merecidos prémios. Aliás, o romance Gente Feliz com Lágrimas foi distinguido com cinco prémios literários, entre os quais o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, e adaptado para uma série televisiva ( RTP).
A leitura não tem idade
A obra, que “marcou várias gerações de leitores”, segundo as Publicações D. Quixote, conta a história “de uma família que se desfaz e refaz pelas paragens onde a levam os bons e mais augúrios, uma saga que irresistivelmente arrasta o leitor ao longo de cinco mundos, vividos e pensados através da obsessiva busca da felicidade que move os seus protagonistas”.
Por ocasião do 25.º aniversário da primeira edição daquele romance João de Melo afirmou: "As palavras são, para nós, escritores, a chave do mundo que trazemos oculto dentro de nós, que é fruto daquilo que sabemos, que fazemos e dos sítios onde estivemos". Autor de mais de vinte títulos, entre ensaio, antologias, poesia, romance e conto, João de Melo está traduzido em vários países europeus e no continente americano. O seu mais recente romance, “Lugar caído no crepúsculo”, uma história sobre a vida para além da morte, foi publicado em Novembro de 2014.

Além da escrita e da docência, João de Melo exerceu também o cargo de conselheiro cultural da embaixada de Portugal em Madrid entre 2001 e 2010, tendo criado nessa oportunidade "A Montra Portuguesa", um grande evento além fronteiras.
Sobre o momento atual da cultura, caracterizado pela "crise", afirmou em entrevista à agência Lusa (2014) que, apesar de tudo: "Há depois um movimento de insubordinação de criadores que persistem e que afirmam toda a sua capacidade de movimentação e de criação. Os momentos de crise também costumam ser bastante profícuos. A nossa cultura está bastante viva embora não abunde em termos de espetáculo público",
Em relação ao discurso de guerra presente na sua escrita, reconheceu que "é absolutamente central", como também o da ditadura: "Eu vim ao mundo num momento crucial desta realidade portuguesa".
João de Melo explicou ainda que a génese da sua literatura é universal. Embora nascido nos Açores, considera que "não há lugar, pode haver tempo, não há pequeno nem grande, ilhas ou continentes, porque o que interessa é a condição humana, que é igual nos Açores, no continente, na Europa, na Ásia e na América".

Resta acrescentar que esta convição de João de Melo está em consonância com o percurso cheio de coragem que desde jovem empreendeu, com uma vocação humanista, ao deixar aos 11 anos de idade a sua ilha natal para prosseguir os estudos no continente, como aluno interno do Seminário dos Dominicanos, onde ficou entre 1960 e 1967. Aos 18 anos abandona o seminário e passa a viver em Lisboa, onde prosseguiu os estudos, ao mesmo tempo que trabalhava e colaborava na imprensa escrita, com contatos próximos de importantes escritores, como Ferreira de Castro.

João Godim
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